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OS ELEFANTES NÃO ESQUECEM: UMA CASA AZUL E O SENTIDO DE SUA EXISTÊNCIA

February 18, 2018

 

Uma das minhas primeiras lembranças de carnaval, além das festas de escola e dos clubes que realizavam matinês, está na negativa de minha avó em não me permitir ir ao Galo da Madrugada com meus tios. “Menino, quando você crescer você vai”. Ela detinha a arte de me entreter e logo me fazer esquecer a frustração.  Vovó Irene, naquela época, já não ia às ruas, mas nunca deixou de ser uma foliã.  Nascida em 11 de fevereiro de 1924, na casa onde, hoje, eu moro, vários de seus aniversários invariavelmente terminavam em um grande mela-mela regado a muito frevo. Qualquer bate lata, ou caboclos de lança passando pela rua, eram motivos ir para ao portão e vê-los passar... e, logicamente, segurando minhas mãos para que eu não resolvesse entrar na bagunça (sou desses até hoje).

 

Assim, quando criança, não havia melhor lugar para passar o carnaval senão ao lado de dona Irene. Em sua casa me chamava atenção a sua coleção de nove elefantezinhos roxos, enfileirados do maior para o menor e com os bumbuns virados para a porta, pois diziam dar sorte se assim expostos. Costumava falar que cada um deles eram um membro de sua família: ela, meu avô e seus sete filhos. E que colecionava elefantes porque seu pai também o fazia e porque, também, ele era louco por elefantes. Sei que este hábito passou por minha mãe e também chegou a mim. E como minha avó, possuo um elefante pra cada membro de minha família. São três, eu e meus dois filhos (estes que presentes na foto de cabeçalho). Bem como colecionar elefantes, resido no que, durante muitos anos, foi a residência de minha avó e do meu bisavô. Sempre ouvi muitas histórias a respeito dele. Diziam ser uma pessoa de excelente humor, um exímio carnavalesco e não apenas isso, era um brincante. No período junino, vejam o grau de insanidade, ele retirava todas as comidas da dispensa (parte de onde hoje fica o quarto que durmo) e a enchia do piso ao teto de fogos de artifício, principalmente de busca-pés. Estes últimos, soltos pela casa para delírio e medo de seus convidados, contam alguns.

 

Uma figura deste tipo, logicamente que haveria de me despertar o interesse. Assim, nos meus primeiros meses de graduação em História, pela UFRPE (2012), resolvi fazer buscas com seu nome, Carlos Albuquerque Pereira de Oliveira Filho. De início, os resultados obtidos foram acerca de seu casamento, alistamento eleitoral, nascimento de seu primeiro filho e vários editaes, onde ele aparece como escrivão de cartório, dando fé para falências e coisas do tipo. Enfim, a imagem de meu bisavô, pelo menos nas edições do jornal A Província[1], na década de 1920, apontavam para um burocrata.

 

Seria possível haver registros materiais que comprovassem de alguma forma aquele bisavô brincalhão tão falado por netos e conhecidos? Desta maneira, decidi pesquisar utilizando o nome de seus primos Raul e João Valença, conhecidos como os Irmãos Valença, compositores de inúmeras músicas carnavalescas e canções de pastoril, que também habitavam o sítio. A intuição foi certeira. Foram inúmeras ocorrências de seus primos famosos, mas o nome de meu bisavô estava um pouco diferente, com abreviações. Dando margem pra alguma dúvida. Até que, na edição de 26 de janeiro de 1924, do jornal a Província, descubro sua participação em um bloco chamado “Desarma a rede mor”. Não o reconheci apenas por indícios de seu nome, “C. Oliveira Filho”, ou por estar junto aos seus familiares, mas sim por sua fantasia, ELEPHANTE.

 

Quanto ao bloco, membros da família afirmaram não conhecer. Acredito que se soubessem, o Bloco Carnavalença, que hoje sai pelo carnaval, pudesse vir a ter outro nome...

 

Além da menção no bloco carnavalesco de 1924, o “vovô Carlinhos”, assim carinhosamente chamado por seus netos e bisnetos, aparece em outra edição do jornal pesquisado. Desta vez como um dos diretores do “Gremio Familiar da Magdalena”[2], na publicação de 23 de outubro de 1924.  Nesta, relatasse o primeiro espetáculo “lyrico pastoril” no qual se obteve êxito a apresentação do drama intitulado “A maior riqueza”[3].  Vale ressaltar, que o pastoril dos Valenças é apresentado até nossos dias.

 

Pelos resultados obtidos por meio da pesquisa no Jornal a Província, O “Gremio” foi bastante presente na vida cultural da cidade do Recife no início dos anos 1920. Sendo o pastoril representado no sítio o grande destaque.

 

É no mínimo curioso olhar para trás e se dar conta de que o local que você mora desde os 03 anos de idade, foi palco para a palavra festa virar verbo. É emocionante perceber que a capacidade de agregar familiares e amigos parece ser a vocação desta casa azul que habito, o sentido de sua existência. É similar a visão de Clarice Linspector sobre o Recife e a festa momesca, em Restos do carnaval:

 

“E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu”

 

Se caso seja questionável o mérito do imóvel, certamente a memória viva dos elefantes foliões a isso se deve. Como neste último sábado de carnaval, onde familiares e amigos se reúnem na “velha” casa azul para irem brincar o Galo da Madrugada.    

 

 

 

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[1]Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/128066_02/10496>. Acesso em: 17 fev 2018

[2] Em outras publicações do Jornal a Província pode aparecer como “Gremio familiar Magdalenense”

[3] Disponível em: <http://memoria.bn.br/docreader/128066_02/12212> Acesso em 17 fev 2018

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Sílvio Cadena

Publicitário e Historiador

Mestrando em História pelo PGH-UFRPE

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