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RECIFE ANTIGO, SANTOS COSME E DAMIÃO E A FEBRE AMARELA: ENCONTROS (IM)POSSÍVEIS

January 21, 2018

Ontem, 20 de janeiro de 2018, foi dia de aula nas ruas do Recife Antigo. Porém, antes de sair de casa, passei uma vista pelo jornal e vi manchete, em letras enormes: “O que você precisa saber sobre a febre amarela”. Saí para a   atividade didática que seria realizada por estudantes de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Cheguei à igreja da Madre de Deus. Antes do início da aula eu me deslocava pelos altares laterais da igreja. Até que cheguei frente a um cujos nichos abrigavam os santos Cosme e Damião. (Figura 1)

 

 

 

Nesse momento, se deu um turbilhão de pensamentos. A manchete do jornal que eu lera e esse altar me juntavam ao passado da capitania de Pernambuco. Corria o ano de 1685. Uma epidemia de “febre pestilencial” matava, indiscriminadamente, os moradores da província. O que seria isso? Hoje, todas as mídias falam, de modo (ir)responsável sobre a Febre Amarela. Reproduzem o pânico de 4 séculos atrás. Hoje, como era no princípio, algumas pessoas também ignoram as informações sobre a doença. Hoje, tem os meios laboratoriais para diagnóstico. Mas, como era no princípio?

 

No princípio era o verbo. A palavra de homens e mulheres que viram o “Vômito Negro” acontecer e não sabiam do que se tratava. Creio mesmo que, um dos primeiros a descrevê-lo foi Gaspar Barléus, o holandês que acompanhou Maurício de Nassau em sua permanência no Recife, ainda no século 17. Foi Barléus que fez as primeiras anotações de uma doença que afetou os estrangeiros recém-chegados à Ilha de São Tomé. Ele falou da alta letalidade entre os doentes, “atormentados sem remitência de uma dor de cabeça de enlouquecer, perturbando-se-lhes o cérebro com o calor da febre. Alguns queixando-se de cólicas, morreram em três ou quatro dias”. As causas?  “cada um conjecturava uma causa diferente para a enfermidade”. Quando, em 1685, a doença chegou nas terras pernambucanas, colocaram a origem do mal em uma embarcação que chegara de São Tomé. Estaria, então, Barléus descrevendo a Febre Amarela? A doença, ainda, não era chamada assim. Mas, era identificada pela primeira vez nas Américas.  Esse pioneirismo não é para ser festejado, afinal a doença, só no Recife matou 2000 mil pessoas, ao longo de seus sete anos de ocorrência. Como disse o médico que a descreveu “chegou a um ponto de não haver homens para acompanhar o Santíssimo Sacramento”.

 

Essa pestilência foi tão grave que o governador da província mandou que fosse realizado um estudo sobre ela, a fim de descobrir causas e modos de combater e tratar o mal. A incumbência foi desempenhada por João Ferreira da Rosa, médico português, formado em Coimbra no ano de 1684. Ele escreveu o tratado médico

 

 

 

Era um tempo que não se sabia da existência de vírus como agente causadores da doença. Então, a causa foi atribuída ao ar “viciado pela influência dos astros e pelas coisas inferiores”. O Recife e Olinda com seus pântanos favorecendo a presença de miasmas, dos maus ares. Mas, a febre podia se dar em virtude da “ingestão de carnes podres” ou pela “ira de Deus por causa dos pecadores”. Assim, a cura viria de rezas para aplacar a ira divina, ou de acender fogueiras ou de dar tiros de canhão, para purificar o ar. A distribuição da doença se dava para outras partes da província de Pernambuco. Menos Igarassu, que se quedava livre da enfermidade. Seria uma bênção dos santos Cosme e Damião, irmãos instruídos na Arte da Medicina? Em 1729, um pintor anônimo registrava essa história.

 

 

 

Hoje, a mídia, um dos deuses da contemporaneidade, espalha, de novo, o mesmo terror.

 

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O quadro se encontra n Museu Pinacoteca de Igarassu, que funciona no Convento de São Francisco

 

Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog.

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