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ENTRE TROMBONES DE VARA, PAPANGUS E O BOI TIRA-TEIMA: AS LEMBRAÇAS DOS CARNAVAIS DA MINHA INFÂNCIA

January 17, 2018

 

Eu nasci no interior do estado de Pernambuco. Há muito tempo. Passei sede danada, na grande seca de 1960. Não tinha água em casa para nada. Lembro que eu chorava de sede. Jarras foram lavadas e esperavam os jumentos com ancoretas de água-doce que os “meninos” (entenda-se irmãos) foram buscar na serra de Taquaritinga do Norte. Como, num lugar desse, ainda se festejava qualquer coisa? Pois, apesar desses suplícios, ainda havia tempo para festa de Carnaval. Era um tempo de torturas, para mim. Eu não gosto dessa festa. Nunca gostei porque me remete a medos. Hoje, meus medos dessa festa são por outros motivos.  São, porque, hoje, entendo que, atrás de uma máscara de papangu, e dentro de uma fantasia de la ursa, existe uma pessoa. O que elas podem fazer? Meus medos de crianças se davam porque, na mente, eles eram monstros de verdade.

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Fora isso, havia meu primo que tocava um maldito trombone-de-vara. Ele morava na casa de minha vó paterna, e ela era a pessoa mais suave que conheci. Ele tocava na banda de música. O tal do trombone ficava pendurado na parede da sala da casa de Mãe Maria (era assim que chamávamos nossa avó) em um armador de rede. Para mim, era assustador demais. Não sei porque. Ao ser tocado, o instrumento emitia um som barulhento demais e, no carnaval, meu primo tocava aquela coisa horrível que aumentava  de importância porque se juntava aos papangus que iam pra rua pular desengonçados. E tinha um papangu que tinha a cara do personagem Amigo da Onça, um personagem cômico que saia na revista O Cruzeiro. Uma vez, estava na casa de Mãe Maria e fui submetida ao momento mais aterrorizante: entraram na sala, o papangu e o trombone de vara com meu primo que era muito malvado. Corri loucamente para me esconder embaixo da cama. Não adiantou. Descobriram meu esconderijo e se puseram à beira da cama a me aterrorizar, até que minha vó viu e deu a maior bronca.

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Finalmente isto tudo acabou porque nos mudamos para Caruaru. Morávamos na Rua Floriano Peixoto, 134 Centro. Ela ficava muito próxima da Rua da Matriz, o polo do carnaval caruaruense. Na nossa rua tinha um moço conhecido por “Lula”, filho de seu João de Oliveira. Ele tinha um jipe que, no carnaval ficava sem capota e participava do “Corso” que ocorria na Rua da Matriz. Papai proibiu, terminantemente, que qualquer uma de nós subisse naquele carro.

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Havia confetes e serpentinas. Costumava-se jogar talco nas pessoas. Caruaru sofria o grave problema da falta de água. Nossos olhos ficavam vermelhos em brasa.

 

Leia mais:

O Carnaval aos olhos de uma criança.

Clube das Pás, 130 anos de Frevo!

 

Para os adultos, havia a lança-perfume “Roudouro”. Uma fina garrafa de vidro. Dourada e elegante. Linda, mesmo. Nela, estava contida uma substância que causava diferentes efeitos aos usuários. Foi proibida pela censura do governo de Jânio Quadros, ainda no ano de 1961. Deviam ser contrabandeadas algumas que ainda circulavam. Eu vi delas em minha casa, levada por um primo rico de São Paulo.

 

Havia o Baile Vermelho e Branco. Realizava-se no Clube Comércio. Era uma festa na qual era necessário ir muito bem vestido. Lembro-me de um desses bailes que meu pai foi acompanhando as minhas irmãs mais velhas. Ele, com um belíssimo terno de linho branco e o detalhe vermelho consistia em um singelo laço vermelho em um dos bolsos do paletó. Minhas irmãs, com os cabelos em penteados muito bem armados no laquê, vestiam belos vestidos vermelhos com echarpes brancas. Nesse mesmo clube, no domingo de carnaval era realizada uma matinée infantil. Não lembro de ter ido a alguma destas festas.

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Mas, à noite, lá estávamos na Rua da Matriz. E vinha um Boi, desses que aparecem no carnaval. Hoje descobri que se chamava Boi Tira Teima. Ah! Boi munganguento estava ali!. Enorme, dançava para cima do povo, tirando teima. Como eu tinha medo! Ele ocupava meus sonhos em terríveis pesadelos. Não eram mais os papangus, era um boi preto e cheio de fitas nos chifres. Meu sossego era quando ele “morria”.  

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Mas, em compensação, tinha a coisa mais linda do mundo: um navio que desfilava na Rua da Matriz. Era o carro da coca-cola...em forma de navio. Como ele era aguardado.

E havia os carnavalescos. Dentre eles, a que mais me lembro, é Cacho de Coco. Uma figura histórica. Dono do Bloco Carnavalesco “Sou eu o teu amor”. Um negro, preto retinto, passava na nossa rua usando um belo terno branco. Contam nos dias de hoje que os desfiles dessa agremiação eram tão rápidos que quando se anunciava “Cacho de Coco vem aí” ele já tinha passado. Não à toa, esse bloco inspirou Carlos Fernando e Alceu Valença a comporem um frevo chamado “Sou eu o teu amor”

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Lá vem lá vem o bloco

Cadê o bloco já passou

Lá vem lá vem o bloco

Cadê o bloco já passou

É um bloco veloz feito um raio

Chamado Sou Eu Teu Amor

Viu, por onde ele passa

Sacode alegria a vapor

Limão com cachaça

E a onda do frevo esquentou

Lá vem o bloco

É um bloco que chega

É um bloco que passa

É um raio que rompe a traça

E a massa espanta a dor

Lá vem um bloco

Chamado Sou Eu Teu Amor

 

Definitivamente, eu não gosto de carnaval. Ele não é meu amor, mas que tem histórias, lá isso tem. E relembrar é viver.

 

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Imagens
http://newtonthaumaturgo.blogspot.com.br/2012/07/saudoso-foliao-cacho-de-coco-em-1975-em.html em 17.01.2018

Boi Tira-teima

http://boitirateimacaruaru.blogspot.com.br/

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Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog.

 

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