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O Carnaval aos olhos de uma criança.

January 13, 2018

 

No ano 590 d.C., o papa Gregório incorporou o Carnaval ao calendário das festas cristãs. Sabendo que a Quaresma é um período de quarenta dias de jejum e santificação entre a quarta-feira de cinzas e a páscoa, o Carnaval foi oficializado como uma festa que se realiza antes da Quaresma. Devido ao fato de que, no período seguinte, o católico não poderia comer carne, tudo seria consumido nos dias antecedentes, mesmo porque não existiam geladeiras para que pudessem guardá-la. Então, era uma espécie de “despedida da carne”. Em latim, a festa era chamada “carne vale”, que significa “adeus à carne”.

 

As pessoas comiam carne até vomitar e bebiam até cair. Antes da santificação da Quaresma, as pessoas se entregavam também à liberação geral dos costumes, cometendo todo tipo de pecados, principalmente sexuais.

 

Na Quarta-Feira de Cinzas, os fiéis iam à igreja católica (e muitos ainda vão) para receberem um pouco de cinza na testa, enquanto ouviam o padre dizer em latim: “Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris”  (Lembra-te homem, que tu és pó e ao pó voltarás).

 

Com o passar do tempo, o Carnaval foi modificado e incrementado por contribuições de vários países, principalmente da Itália e da França. Jogos, brincadeiras, músicas, danças, fantasias, uso de máscaras e carros alegóricos foram acrescentados à festa. Na idade média surgiu o costume da inversão de papéis sociais durante o Carnaval. Os nobres se vestiam de pobres e os pobres se vestiam de ricos. Entre os pobres era eleito um rei, que seria morto ao final dos festejos. Assim surgiu o rei momo.  Entre as inversões do período, muitos homens se vestiam de mulheres.

 

 

Em Portugal, a festa recebeu o nome de entrudo. Essa palavra vem da denominação de bonecos gigantes. Durante o entrudo, as pessoas com boa condição financeira jogavam água com perfume umas nas outras. Os mais pobres jogavam água suja, urina, água com fezes, ovos podres, laranjas podres, restos de comida, etc. Com o passar do tempo, tornou-se comum a ocorrência de violência sexual durante aqueles dias.

 

Lembro do final dos anos 60, em Pleno AI.5 (Ato Institucional Número 5). O Brasil vivia uma Ditadura Militar. Uma criança participava de um Baile de Carnaval no Clube do Bairro onde morava. De repente alguém diz: lá vem a Troça. Subi em um banco e fiquei no muro do Clube admirando toda aquela lindeza. Mulheres com ricos vestidos que brilhavam a luz da lua, dançando no meio da rua, com seus lindos chapéus, uma orquestra tocando músicas ao vivo. Logo depois vem um caboclinho. O som já era outro, as roupas, os adornos de cabeça eram  belíssimos, com grandes penas e os dançarinos que pareciam voar, evoluindo na rua, vestidos com pouca roupa e muito orgulho do que estavam fazendo, não havia nada de vulgar no que assistíamos. Era majestoso, belo, grandioso, parecia com um espetáculo cinematográfico.

 

 

Essa experiência marcou a minha vida. Tenho a recordação de não ter assistido mais esses espetáculos. Entretanto havia no Morro da Conceição um Caboclinho de Baque Solto, o Águia de Ouro. Daí, quando um outro Caboclinho de Baque Solto, chamado Estrela da Tarde, resolvia subir o Morro para saudar a imagem de Nossa Senhora da Conceição, o tempo se fechava. A população já sabia que ia assistir ao encontro de dois grupos que parecia o Bando de Lampião e os Volantes se encontrando em um terreiro. Tocadores de um e de outro lado tirando as Loas e os caboclos se misturando, cada um balançando mais a cabeça e a lança que o outro. Só quem já assistiu a um encontro desses, sabe o que significa. É quando agente entende a força e importância da cultura popular para um povo, seus costumes, seus valores, sua honra, a defesa do seu território presentes naquele encontro.

 

 

Passado esse período, só lembro de carnaval nos bairros porque tínhamos as “La Ursa”.  Nossas mães nos vestiam com alguma fantasia que lembrasse um urso, nós pegávamos latas e íamos nas ruas tocando e cantando ‘A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”. Nas casas onde ganhávamos algum  dinheiro, agradecíamos chamando o morador de ‘é gente boa, é gente boa”  e nas que não davam, gritávamos bem alto  “é pirangueiro, é pirangueiro”. Assim, no final do dia, comprávamos confeitos e pipocas para comemorarmos o farto carnaval.

 

Leia mais:

A la ursa, o urso do carnaval Pernambucano

 

 

Depois disso, lembro  sempre de ter ganho lanças plásticas para dar banho nas pessoas, enquanto os garotos mais descolados, faziam as bombas com canos de PVC para promover verdadeiras batalhas de banho e mela mela nas ruas.

 

 

O Carnaval nas periferias de Casa Amarela estava resumido a mela mela e festas nos clubes ate que, no início da década de 90, surge nas Comunidades o Maracatú de Baque Virado “Nação Pernambuco”, o Afoxé “Alafim Yo Yo” e alguns outros grupos culturais. O Brasil começa a sair do Regime Ditatorial que possivelmente foi responsável pelo desaparecimento de várias expressões culturais dessa Cidade. Nos anos 2000 o Recife assume uma identidade Multicultural. A diversidade cultural é valorizada e políticas públicas são instituídas para estimular o  ressurgimento do Carnaval das agremiações e dos Blocos de Comunidades que aparecem em Bairros pobres e ricos como Casa Forte, Bomba do Hemetério, Alto José do Pinho, Morro da Conceição, Alto Santa Isabel, Vasco da Gama, Centro de Casa Amarela. Enfim, de todos os bairros e comunidades brotam expressões culturais do Carnaval que havia sido esquecidas ou surgem novas experiências. Hoje, Recife é uma referência mundial nos festejos do ciclo carnavalesco porque a verdadeira cultura popular “Nunca Morrerá” enquanto tiver governantes comprometidos com seu fortalecimento.

 

Atualmente, mudanças estão acontecendo e o risco de retrocesso é premente mas, precisamos acreditar nas crianças que são marcadas pela cultura do povo e jamais conseguirão esquecer suas experiências com as festividades e histórias da nosso cultura genuinamente Pernambucana.

 

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Rosana Alves Soares de Souza, moradora da Grande Casa Amarela, no Morro da Conceição. Graduanda de Licenciatura em História da UFRPE, Fundadora da TCM Osso Duro de Roer, fundada e, 1992.

 

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