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EPIFANIAS

January 6, 2018

EPIFANIAS

Na minha família (acredito que, na de muitas) existe uma tradição de dar de presente de Natal uma folhinha do Sagrado Coração de Jesus. Desde Gravatá do Jaburu que, a cada Natal, a gente ficava na expectativa da folhinha. E, todo dia era uma briga: quem destacava a folhinha primeiro era alvo de acusações. Havia choro, prantos e ranger de dentes. Deixem eu explicar.

 

A Folhinha do Sagrado Coração de Jesus é publicada pela Editora  Vozes desde o ano de 1940. Ela tem uma estampa do Sagrado Coração de Jesus, com a inscrição “Coração de Jesus abençoai esse lar”. Na parte inferior, tem e um bloquinho com um calendário encaixado, cujas folhas são destacáveis, diariamente. Nelas, estão marcados os dias santos, feriados, nomes de santos, cor da missa e outras infinidades de informações.

 

 

Ainda hoje, minha irmã nos dá uma folhinha. E agora, já estende para as sobrinhas.

 

A minha fica na cozinha. E hoje, 06 de janeiro de 2018, fui lá arrancar a “pagela” (é assim que se chama a folhinha) com a data de ontem e lá estava em negrito,  “ 6, jan. sáb. Dias dos Reis Magos”. Olhei atrás e estava escrito “Epifania do Senhor (Mt 2:1-12)”. A partir disso, fui ler o Evangelho segundo Mateus (2:12) e não vi nada que se referisse a Reis, nem mesmo dizendo que eram três e, muito menos, diziam nomes. Nem fala de Epifania. Aí, lembrei que eu tinha estudado sobre o vinho e me deparado com a palavra “Epifania”. Voltei à leitura e, de fato, está lá. “Epifania quer dizer Aparição.  Está relacionada com uma festa da antiguidade grega. Realizada no dia 06 de janeiro, ela comemora o retorno do sol (a maior estrela do sistema solar), quando se festeja o aparecimento do deus Dionísio realizada através da transformação da água no vinho”.

 

Diante disso, fui reler o Evangelho e entendi o porquê da “Epifania do Senhor”:  os homens citados por Mateus, eram magos (assim chamados porque eram astrônomos e astrólogos). Saíram Oriente (provavelmente a Pérsia) seguiram a estrela e, diante do Rei Herodes, anunciaram a “Aparição (Epifania) do Rei dos Judeus”. Não faz referência a reis, nem que eram em número de três. Só muito tempo depois é que um monge beneditino que viveu entre 673-735, chamado Beda, instituiu as formas dos magos e os classificou de “Reis Magos”, dando-lhes nomes e lugares de procedência: Melchior, rei da Pérsia; Gaspar, rei da Índia e Balthazar, rei da Arábia. A tradição manteve isso, e, assim os conhecemos. Aí, esse nome “Balthazar” me trouxe de volta à minha família e lembrei que é aniversário de meu irmão que seria chamado de Baltazar mas, acabou recebendo o nome dele mesmo e que começa por R (letra do nome de meu pai, Raimundo).

 

Também, lembrei, que nessa data, 06 de janeiro, há muitos anos, havia, em Gravatá do Ibiapina (Figura 2) a “Queima da Lapinha”. Era o encerramento do ciclo natalino, que começava em 08 de dezembro, com a festa de Nossa Senhora da Conceição, e encerrava em 06 de janeiro, Dia de Reis e dia de Queima da Lapinha.

 

 

Era o nosso momento de Epifania. As famílias começavam a aparecer na praça em frente à igreja, para assistirem ou participarem da queima da lapinha. Todas as pessoas que usaram folhagem para enfeitar seus presépios se reuniam em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Arrumada a pira com as palhas, alguma pessoa mais ilustre da comunidade, podia ser a beata mais influente, por exemplo, ateava fogo. As pessoas todas, formavam uma grande roda em torno da fogueira e, girando no sentido horário, cantavam uma música própria desse momento. Depois, as pessoas se recolhiam às suas casas. No dia seguinte, depois que a cinza estava fria, era recolhida para ser usada na Quarta-Feira de Cinza, para ungir os fiéis.  Iniciava o Ciclo Quaresmal.

 

Adeus a lapinha,

adeus que eu me vou

Adeus a lapinha,

adeus que eu me vou

Até para o ano se nós vivos formos

 

A nossa lapinha já está se queimando

A nossa lapinha já está se queimando

E o Menino-Deus nos abençoando

E o Menino-Deus nos abençoando

 

Hoje, dia de Reis...em muitas casas, ainda se come o Bolo dos Reis. É a eterna Epifania do Senhor.

 

PS: Eu tinha me esquecido como era a letra e a música. Pedi à minha irmã mais velha que gravasse. Foi a minha Epifania pessoal. É à ela que eu dedico essa crônica.

 

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Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog.

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