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O RECIFE ASSOMBRADO E A MOÇA TUBERCULOSA

December 30, 2017

 

A Tuberculose é uma doença infectocontagiosa causada por uma bactéria chamada Mycobacterium tuberculosis. A enfermidade, também conhecida como “tísica” e “héctica,” é tão antiga quanto a humanidade. Os arqueólogos diagnosticaram nas múmias do Egito e em ossos de nossos antepassados mais remotos. Pode afetar qualquer parte do corpo humano (e animal) e não apenas os pulmões. A contaminação pode ocorrer por diferentes meios (desde catarro até alimentos contaminados). Pode levar à morte, quando há outros fatores, como a pobreza e fome extremas ou a depressão do sistema imune. No Brasil (e enquanto os golpistas não acabarem) o tratamento é gratuito feito pelo SUS. É uma doença desconhecida pela população. Mas, o que isso tem a ver com RECIFE ASSOMBRADO E A MOÇA TUBERCULOSA? É que, há dias, o Empório Pernambucano mostrou sua preocupação com esse desconhecimento. E hoje, 29/12/2017, li o relato de uma moça sobre assombrações de Apipucos. E lembrei da minha leitura de juventude que tem a ver com assombrações e Tuberculose. É aí que se juntam realidade e ficção e a gente fica sem saber se a vida imita a arte ou se é a arte que descreve a vida. Vi isso quando fui escrever um trabalho científico sobre a Tuberculose no Recife do 1800.

 

 

Pois bem comecemos essa História. Nos anos de 1840 surgiu, no Recife, a Sociedade de Medicina de Pernambuco. Composta pelos ilustres doutores que se formaram na França, eles tinham os corpos em Recife, mas a cabeça era parisiense. Apesar disso, fizeram sua clientela na cidade. Em 1842, publicaram o primeiro volume dos Anais da Medicina Pernambucana, onde esses títeres da medicina narravam suas experiências e estudos sobre saúde e doenças na província de Pernambuco. Neles, surgiram os registros da “héctica”, dos “tísicos”. Não se falava de Tuberculose. Fazendo justiça, digo que eles foram realizados pelo médico Simplício Antônio Mavignier. É daí que começa a história DO RECIFE ASSOMBRADO E A MOÇA TUBERCULOSA.  Por esse tempo, vivia a clinicava no Recife um médico chamado Pedro Dornelas Câmara. Membro da dita Sociedade de Medicina de Pernambuco, o esculápio pernambucano era muito requisitado e, por isto, tinha uma vasta clientela, atendendo, também, nos domicílios. Portanto, era um médico da família. Apesar disso tudo, havia um fato que desagradava certa parcela da sociedade recifense, composta pelos escravocratas e moradores das casas grandes, dos sobrados e da nobiliarquia açucareira: a negritude do Dr. Dornelas. Era médico, é verdade, mas, faltava-lhe o “Diploma de Branco”. Mal sabiam eles que a negritude e os laços com a Mãe-África conferiam, ao esculápio de ébano, além da ciência médica, poderes curadores que a medicina branca não conseguia alcançar e que a formação europeia ignorava. Esse “problema de cor” submeteu o Dr. Dornelas a um grande constrangimento: levar uma cusparada. Quem conta esse episódio é Gilberto Freyre, no seu livro “Assombrações do Recife Velho” (p. 92-94).  Vejamos o que Freyre (2008, p.93) escreveu sobre o que se passou entre o Doutor Dornelas e a Donzela

 

...certa vez, passava de sobrecasaca e de cartola, por uma das ruas mais fidalgas da cidade do Recife, quando, da varanda de um sobrado opulento, iaiá mais aristocrática resolveu zombar de qualquer preto metido a sábio e encartolado como qualquer doutor branco. E não encontrou meio mais elegante de manifestar seu desdém pela ‘petulância do negro’ que este: cuspir-lhe sobre a cartola. Pois cartola era chapéu de branco e não de negro.

 

Sentiu Dornelas a cusparada sobre o chapéu. E, tirando a cartola ilustre e examinando a cusparada, diz a lenda que concluiu logo a olho nu: ‘Coitada da iaiá. Tuberculosa. Não tem um ano de vida’. E, antes de findar-se o ano, saía do sobrado fidalgo um caixão azul com o cadáver da moça. Morrera tuberculosa.

 

Doutor Dornelas morreu tempos depois. Então, começou a aparecer em sessões espíritas realizadas nos salões ilustres do Recife. E, através delas, continuou a medicar, com a mesma eficiência e cuidados de seus tempos de ser vivente sobre a terra. Suas receitas faziam sucesso.

 

Será que ainda encontramos as “receitas do Dr. Dornelas” na feira de mezinhas do Mercado São Jose? As receitas? Essas, eu não garanto, mas garanto que a Tuberculose continua assombrando as pessoas. Matando as pessoas. Apesar de ser doença antiga, continua assolando, fazendo do Recife um dos municípios da área de risco no Programa Nacional de Controle da Tuberculose. Talvez, não tenhamos mais as receitas do Dr. Dornelas, mas (e por enquanto) temos o SUS que trata de graça. É só se informar melhor nas Unidades Básicas de Saúde, no Posto de Saúde. Não deixe que a “Dama Branca” (fig.1) continue (lhe) assombrando...ou fazendo assombrações pelo Recife...

 

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 Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog.

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