Estrada do Encanamento, 675.

Casa forte

info@emporiopernambucano.com.br

Tel: (81) 9 7914-3028

© 2015 por Empório Pernambucano

  • White Facebook Icon
  • White Twitter Icon
  • White Instagram Icon

ENTÃO, É NATAL! OU MELHOR, REVEILLON.

December 25, 2017

 

O Morro da Conceição faz parte do antigo Bairro de Casa Amarela que equivalia a quase um terço de Recife. A Antiga Casa Amarela reunia bairros que vão do Alto José do Pinho até o Córrego do Jenipapo, Alto Santa Isabel, Alto do Mandu, Sítio Novo, a grande Nova Descoberta, Vasco da Gama, entre outros. Na gestão do então Prefeito Jarbas Vasconcelos, foi aprovada na Câmara de Vereadores, a lei que institui novos bairros e hoje em dia, Casa Amarela consiste na parte antiga com o Centro Comercial no qual fica o Mercado Público, o Cemitério, o Colégio Dom Vital, enfim, uma área mais histórica.

 

Mas para quem vive na Região, o sentimento de pertencimento permanece, as ligações culturais são muito fortes, as relações políticas, econômicas, sociais e familiares interligam os bairros.

 

Como moradora do Morro da Conceição há 55 anos, vivi muitas experiências que fazem parte da cultura do grande bairro e vou destacar algo peculiar. No dia 25 de dezembro as famílias de boa parte do mundo, celebram o nascimento do menino Jesus e, a seu modo, fazem ceias, quando produzem o que melhor sabem fazer, para comemorar o Natal, conforme costume abençoado pelas Igrejas Cristãs.

               

 

As festas de final de ano também são momentos muito nostálgicos que nos fazem lembrar pessoas que já se foram, quem é importante para nossas vidas, amigos distantes, conquistas e tristezas do ano que passou, desafios para o futuro. Nessas divagações eu comecei a lembrar o quanto nada disso nos atingia na infância.

               

Morávamos em uma casa simples, éramos quatro irmãos, nossos pais possuíam poucos recursos mas toda a comunidade estava se preparando para as festas de final de ano. O interessante é que a festa mais importante não era a de Natal, porque nela nós esperávamos o papa achar a ALELUIA. Lembro do meu pai, ao lado do Radinho de válvulas, aguardando o anúncio que, na Missa do Galo, o papa tinha achado a aleluia. Podíamos comemorar porque o mundo não ia acabar. Mas, depois disso, não lembro de ceia alguma porque, o dinheiro não dava para duas festas muito próximas e era preciso priorizar. Pela lógica da comunidade, o mais importante no Natal era rezar e aguardar a confirmação que ter mais um ano de paz.

               

Quando a televisão chegou, fiquei esperando para assistir a primeira missa do Galo e lembro a decepção de não ter visto o padre achar a Aleluia e que achei a missa muito maçante, diferente da que o padre celebrava no Morro que tinha muita música. Nós vestíamos a roupa nova de Natal para assistir e entoar os cantos que só se cantam no Natal. Porque, aqui era assim, para cada período tinha um canto específico, um caderninho de canto específico.

               

Claro que, depois de meia noite, o sono já dominava e nós íamos dormir felizes com a celebração do nascimento do menino Jesus que veio para salvar a Terra. A partir daí começavam os preparativos para a Passagem de Ano, o popular “ANO NOVO”. Lembro da agonia dos nossos pais em garantir a roupa de romper ano porque não tínhamos dinheiro para comprar para as duas festas e, minha mãe, como costureira, não tinha tempo de fazer roupas para nós porque os ricos faziam pressão para ela dar conta de fazer-lhes as roupas.

               

 

Quando ia chegando as doze horas, poucas casas tinham televisão e nós não tínhamos fogos de prefeitura nem shows na Praça. Mas, aí sim, começava o grande espetáculo. As famílias se juntavam para abrir a bebida que tivessem, a Cidra que chamávamos de Champanhe ou qualquer outra coisa. Logo depois, de todas as ruas e becos da comunidade, as pessoas começavam a sair para cumprimentar seus familiares, vizinhos, amigos, fazer as pazes com quem havia brigado, abraçar a quem queria namorar e não tivera coragem antes, soltar os mijões que eram fogos que cruzavam a rua e o povo que passava tinha que se afastar para correr do mijão.

               

Um momento de celebração, fraternidade, amor ao próximo, solidariedade, igualdade, irmandade que fazia com que as pessoas abrissem a porta de suas casas para todos e todas que quisessem entrar. Não havia restrição em receber nenhum dos vizinhos, virávamos uma grande família. Lembro que quando tinha uns quinze anos, comecei a visitar meus amigos, independente da companhia de meus pais e a consciência que havia diferenças estruturais entre famílias existia. Nem todas as mesas eram iguais e, por exemplo, a da minha casa não era tão abundante. Eu não achava errado o meu vizinho ter, eu só não entendia porque os outros não tinham? Acho que isso foi um marco na minha caminhada porque percebi que a igualdade não era tão igual, ao mesmo tempo em que fiquei feliz ao ver que, mesmo assim, as pessoas se confraternizavam com um afeto de reconhecimento que o outro era seu irmão, companheiro.

               

Logo depois eu arrumei o meu primeiro emprego e, no ano seguinte, eu pude comprar as coisas que queria colocar na mesa para partilhar com meus amigos. Minha mãe não entendeu nada e perguntou o porque de eu ter usado todo meu salário para comprar queijo bom, bolo, doces? E eu respondi que finalmente nós poderíamos oferecer algo bom e gostoso para nossos familiares e amigos. Esse ano também foi muito importante para minha consciência cidadã porque percebi que, apesar de ser bom, não era isso que fazia da festa de Ano Novo ser tão especial, era justamente o que não se compra.

               

Aos trinta e poucos anos, estava em uma roda de amigas e amigos, falando sobre a dificuldade de nossos pais em viver na periferia de Recife, em uma época que não havia infra estrutura adequada, que a energia sempre faltava às seis da noite e nós precisávamos sentar com nossa mãe no terraço para ela contar estorinhas infantis e de trancoso, da falta de transporte, enfim, faltava o mínimo para uma vida socialmente digna. Lembrei de como minha mãe precisava ser criativa para nos alimentar com pouquíssimos recursos e as pessoas que estavam comigo também falaram e citaram vários exemplos sobre isso. No final, fizemos uma retrospectiva cronológica e descobrimos que isso foi uma experiência coletiva de quem vivia na periferia de Recife, durante a ditadura militar de 1964.  Para nós não houve nenhum milagre econômico e o que a nossa estava muito ligada à gastronomia regional, advinda da origem dessa população que, em sua maioria, vinha das secas dos sertões ou foram expulsas da zona canavieira.

__________________________________________________________________________________________

 

Rosana Soares é acadêmica de História na UFRPE e moradora do Morro da Conceição. 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Blog

Posts em Destaque

Engenho São Pedro e a produção de Cachaça ecologicamente correta

May 5, 2018

1/10
Please reload

Arquivos
Please reload

Siga nos
  • Grey Facebook Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey Instagram Icon