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HOJE, NASCE UM MENINO.

December 23, 2017

Lisboa, abril de 2015. Domingo de Páscoa. Ainda havia sinais do inverno, embora já fosse a primavera. Saí para almoçar com uma amiga brasileira e o namorado dela. Procurávamos um restaurante que vendesse uma comida tipicamente portuguesa: Polvo ao Lagareiro. Encontramos um, muito simpático, localizado no Largo de Camões, bem no centro de Lisboa. Sentamos e, enquanto comíamos, conversamos sobre muitas coisas. Ao descobrir que ele era da Ilha da Madeira, comecei a conversar sobre as comidas típicas e de quais ele gostava. A resposta “Gosto de lapinhas” nos espantou. Como assim!!!? Lapinha?!!! No Brasil, lapinha é o presépio de Natal. Ele (Bruno, um musicista, afinava pianos) nos explicou: “Na Ilha da Madeira, lapinha ou lapas é um marisco parecido com ostras, que fica agarrado às rochas. Nas casas mais pobres, é comida do Natal”. Aí, ele nos explicou que os presépios natalinos, também, podem ser chamados de lapinha, mas ele não sabia o porquê. Perguntei se havia a tradicional queima da lapinha, no dia 06 de janeiro e ele disse que não (ou não sabia dizer). E eu respondi: “Na minha terra, todo dia 06 de janeiro, no Dia de Reis, há uma tradicional queima das palhas que enfeitaram a lapinha. Isto tudo é acompanhado de cantos tradicionais. E o ritual ocorre porque o material usado é considerado sagrado, portanto, não pode ser jogado no lixo”. Aí, foi a vez dele se espantar com nossa história. Era Páscoa, dia da Ressurreição de Cristo e falávamos de seu nascimento.

 

Terminamos o almoço e fomos passear no Estoril. Á noite, esse menino pobre da Ilha da Madeira serviu, no jantar, as lapas preparadas à moda do pai dele. Colocou uma frigideira no fogo, colocou as lapas (que estavam congeladas porque foram trazidas da Ilha por um amigo) as quais, com a quentura do fogo, se abriram. Em seguida, temperou com uma colherinha de chá de manteiga, umas gotas de limão siciliano e nos serviu, ainda quente. Estávamos na cozinha que guardava a quentura do fogão. Tudo isto acompanhado de um delicioso vinho português.

 

No dia seguinte, voltei para o Brasil com essa história na minha mente. E agora, neste Natal ela volta, viva. E, assim, passados dois anos fui catar informações sobre as lapinhas da Ilha da Madeira. Achei coisas deveras interessantes[1] e que, talvez, possam explicar os presépios ou lapinhas que vemos por aqui.

 

São dois os tipos de presépios da Ilha da Madeira

 

1)A rochinha ou presépio-lapinha, feito imitando montanhas, vales, fajãs e uma gruta. Após fazer a rochinha, colocam-se as figuras do presépio, casas e igrejas; fazem-se caminhos, lagos, riachos, cascatas e levadas. Por fim, colocam-se os frutos e o menino sobre a manjedoura dentro da gruta.Pelo presépio são colocadas as restantes figuras, onde também participam os pastores e os Reis Magos na Adoração (figura 1).  Ao fazer assim o que se deseja é uma recriação da paisagem da Ilha da Madeira. Tudo lembrando as lapas típicas da ilha e que alimentam.

 

 

 

2) A lapinha em escadinha, ou simplesmente lapinha. Consiste num pequeno altar de três lances (a escadinha) que é colocado sobre uma mesa ou cômoda coberta com uma toalha vermelha e enramada e, por cima desta, uma outra toalha branca rendada. No topo é colocada imagem do Menino Jesus nos restantes degraus os pastores e outras figuras de presépio, frutos como laranjas, pêros, castanhas e nozes e as searinhas de trigo. (Figa 2)

 

E fui atrás dos comeres natalinos. Enquanto a gente se esforça para fazer uma mesa natalina afrancesada, os madeirenses se esforçam em manter as TRADICIONAIS COMIDAS NATALINAS, como: Bolo de mel da madeira (lembra o nosso pé de moleque); Broas da madeira; Carne vinha d’alhos da madeira; Licores da madeira; Canja de galinha madeirense, etc.

 

Mas, e as Lapinhas? Vimos que elas vão para as mesas dos pobres da Ilha da Madeira que só têm as lapas (mariscos) para comer. Enquanto as Lapinhas ou Presépios viram enfeites de Natal para acolher uma mãe, um pai e um menino, muito pobres. Pobres como aquele que me acolheu em Lisboa. Pobre como o da crônica de Clarice Lispector cujo título é “Hoje nasce um menino”, na qual ela narra a seguinte história:

 

“Na manjedoura estava calmo e bom.

Era de tardinha e ainda não se via a estrela-guia. Por enquanto a alegria serena de um nascimento – que sempre renova o mundo e fá-lo começar pela primeira vez – por enquanto a alegria suave pertencia a uma pequena família judaica. Alguns outros sentiam que algo acontecia na terra mas ver ninguém via ou ao certo sabia

Na tarde já escurecida, na palha cor de ouro, tenro como um cordeiro, refulgia o menino, tenro como o nosso filho.

Bem perto a cara de um boi e outra de jumento olhavam. E esquentavam o ar com o hálito do corpo.

Era depois do parto, e tudo úmido repousava, tudo úmido e morno respirava.

Maria descansava o corpo cansado – sua tarefa no mundo e diante dos povos e de Deus seria a de cumprir o seu destino, e ela agora repousava e olhava a criança doce.

José, de longas barbas ali sentado, meditava, apoiado no seu cajado: seu destino, que era o de entender, se realizara.

O destino da criança era o de nascer.

...A pequena família captava a mais primária vibração do ar – como se o silêncio falasse.

E o destino dos bichos ali se fazia e refazia: o de amar sem saber que amavam."

 

Hoje em muitas casas do mundo, nasce um menino.”

(Clarice Lispector. In: Crônicas para jovens. De Bichos e Pessoas).

 

...

Este menino, que renasce em cada criança nascida, iria querer que fôssemos fraternos diante da nossa condição e diante de Deus. O menino iria se tornar homem e falaria.

 

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[1] Disponíveis no endereço eletrônico: http://blog.madeira.best/costumes-e-tradicoes-natal-na-ilha-da-madeira/?lang=pt-pt.

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 Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

 

 

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