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“Ora et labora”: A reza e o trabalho na cozinha das mulheres de deus.

December 3, 2017

 

Esse mês de novembro de 2017 passei em viagem entre São Paulo e Recife. E digo “entre” porque tive que sair de Sampa e vir ao Recife a fim de participar do aniversário de 96 anos de minha mãe e da solenidade de colação de grau da turma de História, a qual me escolheu como Paraninfa. Terminadas essas comemorações voltei à cidade de São Paulo a fim de continuar minhas pesquisas sobre alimentação conventual no Brasil. No trajeto tive meu primeiro arrebatamento quando li, no relato de viagem de Frances Mayes[1], a seguinte frase: “A mudança – a experiência transformadora – faz parte da busca nas viagens” (p.192). Isso me fez perguntar a mim mesma: o que busco nessa viagem? Quem eu busco? Chego em São Paulo e foi louco, porque as pessoas a quem buscava me responderam tardiamente: “não podemos receber agora” e deram lá, suas razões. Mas, acenaram para um encontro no começo do ano que vem. Ótimo. Portas entreabertas deixam, sempre, passar uma nesga de luz. E minha mudança de atitude: do imediato que esperava encontrar, passei para o estado de espera. Bom, sendo assim, agora, antecipo o que seria a segunda parte de minha pesquisa: buscar o trabalho das mulheres religiosas que estão na Abadia de Santa Maria. Pego um metrô que cruza 16 estações e chega ao terminal Tucuruvi. Desço e vou pegar o ônibus 2320-10 – Cachoeira. Cruzo 5 quilômetros até chegar à Abadia de Santa Maria (Imagens 1 e 2)[2].

 

 

Foram 2 horas de viagem. Parti em busca de conhecer a REZA E O TRABALHO NA COZINHA DAS MULHERES DE DEUS.  

 

Ao chegar à Abadia de Santa Maria, a mais antiga Abadia feminina, nas Américas e pertencente à Ordem Beneditina, fui recebida pela Irmã Maria Teresa. Os ensinamentos de São Bento, deixados desde os anos de 500 da era Cristã, determinam que “Todos os que chegam nos mosteiros sejam tratados como o próprio Cristo”. E foi assim que ela me recebeu. Minha visita começou pelo “Atelier”, onde ficam expostos para a venda todos os produtos feitos pelas irmãs.

Meu particular interesse era pelas comidas. Ela me falou de muitas coisas da cozinha e da horta. Dos hábitos alimentares. Dos (a)fazeres da horta e da cozinha. Fez-me degustar dos biscoitos finíssimos, dos licores “feitos pela Irmã Escolástica”. E me mostrou o “Biscoito feito para o Natal. Prove. Ele é feito com...” e enumerou a lista de ingredientes. O ato de destampar a lata já despertou meus sentidos pelo odor desprendido: canela e mais alguma coisa que não identifiquei de imediato. Ao provar a delícia descobri o sabor do cheiro: cardamomo (figura 3). A degustação não me enganou: lá estava o sabor, inconfundível, dessa especiaria de origem indiana e muito antiga.

 

Como o vocabulário da cozinha engloba os ingredientes da comida, verifiquei quais eram os componentes do biscoito: farinha de trigo, açúcar, manteiga, margarina, ovos, amêndoas, baunilha, canela em pó, cardamomo e fermento em pó. De repente, pode parecer que é, apenas, mais um biscoito, mas não, não é. Descobri: que eles são de origem belga e holandesa, mas, também, podem ser encontrados na região norte do Rio Reno, sendo muito apreciado nos países baixos. As receitas podem ser de três tipos diferentes:  com especiarias, com amêndoas e amanteigados. O mais comum e conhecido é o Spekulatius obtido pelas especiarias de cardamomo, cravo e canela. Na Alemanha, esses biscoitos são referência ao tempo natalino. Por isto são cortados com formas que remetam às festividades do nascimento do Menino Jesus (Imagem 4 ).

 

 

 

Como já dito anteriormente, os nomes de receita têm históri. Assim, fui pesquisar o que significa essa palavra “Spekulatius”? Esse nome exótico, ao que parece foi dado ao biscoito por um pasteleiro belga. Vem do latim speculum, que significa espelho. Nada mais lógico que isso: os biscoitos são o espelho das festas natalinas. Mas, também, se liga a specius, ou seja belo, que se oferece à vista e a species que se ligam à aparência e, por fim, às especiarias. Tudo isso despertando a vontade de comer.

 

Ao final de nossa conversa, a irmã perguntou “A senhora é católica?”. Eu respondi que não. E ela retrucou: “É porque teremos Ofício às 15:15. A Senhora gostaria de assistir?”. Respeitosamente eu disse que Sim, apesar de não ser católica, gostaria de ouvir o canto gregoriano. A acolhida foi imediata e amável do mesmo jeito. A Irmã Maria Teresa – OSB - deu-me um longo abraço e um beijo na face e, se retirou para ir rezar.

 

Compreendi o sentido da mensagem “A mudança – a experiência transformadora – faz parte da busca nas viagens”. Minha ida à Abadia era para eu especular sobre a REZA E O TRABALHO NA COZINHA DAS MULHERES DE DEUS. Voltei para casa muito pensativa sobre o lema da Ordem beneditina: “Ora et Labora”. Faça as coisas com amor e grandeza.

 

 

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A[1] Bella Toscana, publicado em 2002 e 2013 pelas editoras Rocco e L&PM Pocket.

 

B[2] Imagens retiradas do site: http://www.abadiadesantamaria.com.br/. Data de acesso.

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Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

 

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