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Coisa de negro

November 25, 2017

 

Esta semana falarei de “COISA DE NEGRO”. Para tal, pedirei licença às divindades africanas, todas elas, a fim de me darem direção, prumo e saber. Não justificarei minha escolha de tema. Não direi que tem relação com o dia 20 de Novembro ou Dia da Consciência Negra. Não direi que esse dia é para pensar sobre Zumbi dos Palmares, em sua luta pela libertação das pessoas africanas que foram escravizadas pelo europeu. Para falar de “COISA DE NEGRO” não farei referências “às rubras cascatas que jorraram das costas dos negros, entre cantos e chibatas”. Não falarei dos grilhões de ferro, do tronco, dos navios negreiros repletos de pessoas aprisionadas. Não falarei, aqui, das mulheres e meninas estupradas pelos senhores de engenho. Não falarei, aqui, das pessoas cujas mãos foram decepadas nas moendas dos engenhos. Não falarei, aqui, das fornalhas dos engenhos para onde foram enviados, para trabalhos penosos, os “negros mais renitentes e teimosos”. Não falarei, aqui, da fome narrada pela escritora negra Carolina Maria de Jesus, em seus livros “Quarto de Despejo” e “Pedaços da Fome”. Não falarei desses horrores de brancos contra os negros. Não precisarei justificar que “racismo é problema de negro não, é de todo mundo visse!”. Simplesmente falarei de “COISA DE NEGRO”.

 

COISA DE NEGRO é o poeta recifense Solano Trindade...e seu “Navio Negreiro” cujo verso final diz assim

“Lá vem o navio negreiro

Com carga de resistência

Lá vem o navio negreiro

Cheinho de inteligência”

 

COISA DE NEGRO é a poeta Stela do Patrocínio. Negra, nascida e morta no século XX, que escreveu coisas assim...

“Eu sou Stela do Patrocínio
Bem patrocinada
Estou sentada numa cadeira
Pegada numa mesa nega preta e crioula
Eu sou uma nega preta e crioula
Que a Ana me disse”.

 

“Não trabalho com a inteligência
Nem com o pensamento
Mas também não uso a ignorância”

 

COISA DE NEGRO é Maria Firmina dos Reis. Mulher, negra, nascida no Maranhão nas primeiras décadas do século 19 e que, agora, em 2017, fez 100 anos de sua morte. Professora das primeiras letras. Contista, poeta, Musicista. Escreveu o primeiro Romance brasileiro de cunho abolicionista. Um livro chamado “Úrsula”. Firmina, entre todas as denúncias contra a escravidão, mostrava bem conhecer os costumes alimentares da África. Dos dias festivos. Veja-se esse trecho: “Pois ouça-me, senhor conselheiro: na aminha terra há um dia em cada semana, que se dedica à festa do fetixe, e n’esse dia, como não se trabalha, a gente diverte-se, brinca, e bebe. Oh! lá então é vinho de palmeira mil vezes melhor que cachaça, e ainda que tiquira”.

 

COISA DE NEGRO é Conceição Evaristo. Romancista, poeta e contista negra denunciando o tratamento dado aos negros e negras. Narrando, no conto “Melão” o linchamento de uma mulher, também negra como ela “Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!..”

 

COISA DE NEGRO são as receitas, as histórias e mitos das comidas Afro-Brasileiras cantadas e encantadas por Flávia Moraes, negra, estudante de História da UFRPE.

 

COISA DE NEGRO é a preta KháLua, historiadora, formada pela UFRPE cortando cabelos de meninas e meninos negr@os, como ela.

 

COISA DE NEGRO  é ouvir Felipe Santana, recitando poesias que falam dos “baculejo da polícia em ônibus Macaxeira-Abreu e Lima”.

 

COISA DE NEGRO é aprender sobre África com Breno Caíque, Zuleide Serafim, Ellen Rafa, Débora Santos, Gabryella Martins, Karine França...negr@s, estudantes de História.

 

COISA DE NEGRO é esse palavreado que vai para nossa panela: angu, xerém, xinxin de galinha, abará, acarajé, obalá, aluá, mingau, mungunzá, fubá, pirão...e tantas outras.

COISA DE NEGRO, é ver Dona Carmen Virgínia preparando as comidas para os Orixás: Exu, Ogun, Oxossi, Oxum Maré, Logun Edé, Obaluaiê, Nanã, Xangô Oxum, Oyá e Obá, Ewá, Ossain, Ibejis, Yemanjá, Oxalá, Orumilá.

 

 

 

COISA DE NEGRO é o café originário da África. Quem pensa nisso?

 

COISA DE NEGRO são as especiarias africanas, como as pimentas. É o Inhame da Costa. É o Dendê.

 

COISA DE NEGRO é o meu nariz, o meu genoma, o meu DNA. É meu sangue, apesar da minha pele branca.

 

COISA DE NEGRO é a luta cotidiana para ser visto como pessoa.

 

COISA DE NEGRO é ler Isabella Puente: “tenho orgulho da minha cor, do meu cabelo e do meu nariz mas é osso. queria um dia da consciência humana, mas como a humanidade é racista, a gente continua insistindo na consciência negra mesmo.  racismo é problema de negro não, é de todo mundo visse. uni-vos. axé!”

 

COISA DE NEGRO é dizer “racismo é problema de negro não, é de todo mundo visse”.

Axé....

 

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As frases em preto e branco foram retiradas da página do Prof. Alexandre Macedo. Coreógrafo, bailarino e professor de frevo. O ultimo quadro foi retirado da página do Prof. Rennan Peixe. Fotógrafo e professor do estado.

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Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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