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ROCAMBOLE, ROCAMBOLESCO, ENROLADO: AS DELÍCIAS E OS ROLOS POR TRÁS DAS PALAVRAS.

November 18, 2017

 

 

Bolo de Rolo sendo vendido nas ruas do centro Recife

 

Certo dia, na Universidade de Coimbra, ouvi a pesquisadora Carmen Soares fazer referência à Torta-Rolo de Viana do Castelo. Ao falar sobre essa delícia portuguesa, ela se dirigiu a mim, como se me desafiasse a pensar mais sobre as origens do bolo-de-rolo, uma iguaria doce preferida por 99,9% dos pernambucanos e já apreciada por outras pessoas de outras plagas. Pois bem, a minha viagem à cidade portuguesa de Viana do Castelo, realizada entre os dias 21 e 24 de outubro de 2017, me levou a vários encontros, dentre os quais com a Torta-Rolo. Ela se aproxima mais do meu paladar que não é chegado à gordura e ao doce excessivo que caracteriza o bolo-de-rolo pernambucano. Não quero, aqui, alimentar nenhuma polêmica, muito menos qualificar um doce em detrimento do outro. O que quero é pensar sobre AS DELÍCIAS POR TRÁS DE UMA PALAVRA.

 

Digo isso porque sempre terá os guardiões do ufanismo pernambucano, que cheira à xenofobia. Por vezes, se esquecem que, um dia, Pernambuco, foi colonizado por portugueses vindos de Viana do Castelo que, para cá, trouxeram suas tradições, cultura, sua crença, seus hábitos alimentares. Provavelmente, trouxeram o modo de fazer a Torta-de-Viana. Talvez, daí, venha aquele velho e bom Rocambole vendido nas ruas do Recife. As delícias das ruas de São José. Talvez, as mulheres da família Bezerra e da família Queiroz, originárias de Viana do Castelo, tenham produzido esse doce minhoto nas plagas pernambucanas e, à falta do marmelo, tenham usado a goiaba. Esse bolo enrolado, essa torta de Viana, esse rocambole, ou como queiram chamar, atravessou séculos e chegou até hoje. Assim, vejo que disputas ideológicas entre bolo-de-rolo e rocambole são muito acirradas e arraigadas, beirando a intransigência, chegando, quase, à xenofobia.  É só dar uma lida nesse trecho de um certo blog “O bolo de rolo é uma das mais generosas tradições de Pernambuco. E merece reverência. Por isso é preciso cuidado com afirmações apressadas sugerindo que sua receita deriva do rocambole”. Ora, como se o Rocambole fosse algo menor. O Rocambole que, ainda, gera perguntas, levanta incertezas, traz, em seu nome, inúmeros significados. Tem, atrás de si, as delícias que uma palavra pode esconder, carregar, é dado como algo sem importância. Mas, o que são “tradições”? Elas são ou podem ser inventadas, como bem disse o historiador Eric Hobsbawn. Afinal, o bolo-de-rolo pernambucano é a circulação de um saber culinário português, o bolo colchão- de- noiva, o qual, provavelmente, volta nos dias atuais, como o tal “bolo-de-rolo-nude”, isto é, volta às antigas camadas sobrepostas e intercaladas com um doce.

 

E, para botar mais lenha nessa fogueira de vaidades tradicionais, trago a citação da autoria de Virgílio Nogueira Gomes: “Como parecendo uma conclusão, bolo de rolo é para mim uma evolução do rocambole brasileiro do qual a origem está na torta portuguesa. Mas mantenho a questão: quando e porquê se começou a chamar rocambole? Parece rocambolesco! De facto verificamos que todas as versões são da mesma família de bolo enrolado. Assim a torta portuguesa deu o rocambole do Brasil. Depois do rocambole aparece o bolo de rolo de Pernambuco que é um rocambole em que a massa de bolo é mais fina e pode enrolar em mais camadas”.

 

Este desafio feito pelo pesquisador me pareceu muito mais rico do que as disputas pelo Mito de Origem. E para responde-lo fui buscar em diferentes fontes e, por fim, escrevi esse post de hoje, o qual intitulei: ROCAMBOLE, ROCAMBOLESCO, ENROLADO: AS DELÍCIAS E OS ROLOS POR TRÁS DA PALAVRA.

 

 

 Rocambole: segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (2007,p.566) é um substantivo masculino usado para designar “bolo, doce ou salgado, assado em tabuleiro e enrolado com recheio”. A palavra é de origem francesa e foi criada no século XIX. Fui ao Dicionário Gastronômico, escrito no século XIX, por Alexandre Dumas, mas não encontrei nada a respeito. A partir dessa ausência, parti para pesquisar no Pequeno Dicionário da Gula (2000). Na página 444 está o verbete Rocambole: “bolo salgado ou doce assado em tabuleiro, que se caracteriza por ser servido enrolado e recheado. Quando doce, a massa é feita sem gordura, à base de ovos, açúcar e farinha e sua consistência, depois de pronto, é leve e macia”. Por sua vez, o   Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – Mirador Internacional (1976, p.1524), mostrou que Rocambole é um substantivo masculino e se caracteriza por ser uma “Regionalidade” assim, temos o verbete 1) “Em São Paulo, é uma espécie de bailado, em que há influência coreográfica da valsa”. Verbete 2) Regionalidade (sul, etc.) “Espécie de pão-de-ló enrolado tendo de permeio fina camada de doce em pasta. Também chamado de bolo-de-rolo e colchão-de-noiva”. Essa definição se aproxima do conceito de Márcia Algranti, no mesmo Pequeno Dicionário da Gula (2000, p.82). Para ela “bolo-de-rolo é o mesmo que rocambole, embora no Nordeste brasileiro, especialmente Pernambuco, onde atinge sua maior perfeição, trata-se de um doce feito com massa de pão-de-ló extra fina enrolada várias vezes e recheada com goiabada dissolvida em pasta”.

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O Mito da Origem se mistura...não é rocambolesco? Mas, o que seria esta palavra? A pesquisa realizada mostrou que, a palavra veio da literatura e foi apropriada pela Gastronomia e está perfeitamente adaptada ao bolo-de-rolo, ao bolo enrolado, ao rocambole. Rocambolesco, diz respeito a alguém “cheio de peripécias e lances imprevistos de enredo fantástico”. Ou seja, uma pessoa enrolada e enroladora. A partir dessa descrição, voltei ao verbete Rocambole e sua representação literária. A consulta ao Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – Mirador Internacional (1976, p.1524) revelou que rocambolesco é relativo ou semelhante “às aventuras extraordinárias ou inverossímeis de Rocambole, personagem de um romance de Pouson du Terrail (1829-1871)”.

 

Vencemos todos, porque vimos que os saberes e sabores circulam, são apropriados e usados segundo as culturas e os lugares. Quantas DELÍCIAS E ROLOS HÁ POR TRÁS DA PALAVRA ROCAMBOLE, ROCAMBOLESCO E ENROLADO!.

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Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

 

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