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ENTRE MANÉS, PÃO-POR- DEUS, FILIGRANAS E CORAÇÕES DE PAPEL: O QUE NOS DIZ UM PANO DE COPA?

November 11, 2017

 

Durante minha estadia em Coimbra, em outubro/2017, conheci uma família portuguesa muito acolhedora e hospitaleira. Foi da matriarca dessa família que ganhei delícias portuguesas, como dobrada à moda e uma caixinha com marmelada (de marmelo e não de goiaba). Além disso, ganhei outros mimos, dentre os quais estava um pano de copa, cuja pintura me chamou atenção. São pombos, corações, barquinhos carregando estrofes que falam de amor.  Fiquei sem entender bem o que ela significava. Daí minha amiga portuguesa (Dona Cecília) me explicou “é um pano dos namorados. A senhora deve ter visto quando foi a Viana do Castelo”. Sim, de fato eu vi quando lá estive.  Achei interessante e só. Ainda, ao ver os corações pensei, simplesmente, nas histórias de Gilberto Freyre sobre os papéis de embrulhar docinhos e que sumiram. Nada mais que isso. Quanta ignorância estava por trás dessa minha atitude, quase esnobe! Só percebi a grandiosidade desses achados depois, quando fui estudar sobre o Pão-por-Deus. Foi quando aprendi sobre a profunda ligação havida ENTRE MANÉS, PÃO-POR- DEUS, FILIGRANAS E CORAÇÕES DE PAPEL E UM PANO DE COPA.

 

Só quando abri meu coração e mente, aprendi sobre a variedade das fontes da História. Aprendi, que panos de copa contam histórias da mentalidade de um povo. Falam de tempos de outrora e mostram a circulação de saberes. Podem falar de amores, de saudades, falam de valores humanos. Fala de viagens e viajantes. Fala de conceitos e pré-conceitos.

 

Foi estudando um Pano de Copa que aprendi de onde vem e o porquê de chamar uma pessoa de “Mané”. Aprendi que esse termo foi aplicado aos homens simples, pescadores de origem portuguesa, notadamente açoriana, que lá pelo século XVIII foram colonizar a Ilha de Santa Catarina, atual Florianópolis e que passaram a ser alcunhados de “manezinhos da Ilha”. O peso do nome Manoel. Enquanto eram tratados com pré-conceitos, suas amadas, saudosas, escreviam versinhos em panos de copa (Figura 1. Acervo pessoal)

 

E minha admiração e descoberta chegou ao máximo quando descobri que tudo isso se liga à floração do IPÊ AMARELO e à cidade de Florianópolis[1]A. Cidade que, lá pelo século XVIII foi colonizada por pessoas vindas dos Açores. É durante o fim de outubro e começo do mês de novembro que  o Ipê Amarelo floresce e, nesse mesmo período costuma-se circular o Pão-Por-Deus, só como outra representação. Segundo o professor Oswaldo Rodrigues Cabral (1949)[2] esse Pão-por Deus, assume a forma de "Corações, também conhecidos por ‘Pão por Deus’, são curiosas mensagens feitas de papel multicolor recortado e de caprichosas filigranas pacientemente rendilhados, alguns até demandando paciência e habilidades para abri-los”.    

 

 

 

Entretanto esse mesmo pesquisador, à época, (1949) conversou com dois nativos dos Açores sobre esses corações de papel: ambos desconheciam esse costume. Daí ele fez a seguinte pergunta: “Será que no arquipélago açoriano desapareceu o costume, ou nunca existiu, tal como em Santa Catarina?”  

 

Pois, tanto depois, talvez, minha amiga portuguesa, Dona Cecília Fernandes, em sua hospitalidade, tenha possibilitado uma resposta à pergunta do professor Oswaldo. Os CORAÇÕES DE PAPEL, são uma arte vianense e não açoriana. E por que digo isso? Porque o PANO DE COPA oriundo de Viana do Castelo ([1] B) revelou a intensa relação entre MANÉS, CORAÇÕES DE PAPEL, FILIGRANAS E BARCOS. É só ver as imagens 3 e 4 abaixo (Acervo Pessoal).

 

 

 

 

______________________________________________________________________________

A) www.apcefpa.org.br/portal/lumis/portal/file/fileDownload.jsp?fileId.

B) A RESPEITO DOS CORAÇÕES E DO "PÃO POR DEUS". Este artigo integra o capítulo "recordando o passado" e' está sendo transcrito do Boletim N° 02 de 1949, e agora republicado, foi assinado pelo emérito Professor Oswaldo Rodrigues Cabral. In:  14° congresso de Brasileiro de folclore. BOLETIM DACOMISSAO CATARINENSE DE FOLCLORE.

C) Nessa cidade, se dá uma arte de joalharia, finíssima, chamada “Filigrana”. Além disso é bom saber que Viana do Castelo, representou, durante muito tempo, uma próspera cidade portuguesa, com estaleiros, e um porto de onde saíram inúmeras embarcações para várias partes do Velho e Novo Mundo.

 

Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

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