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DO REZA FEZ-SE O PRANTO. DAS LÁGRIMAS FEZ-SE O “PÃO POR DEUS”.

November 4, 2017

 

 

Andando pelas ruas de Lisboa, nos últimos dias de outubro deste ano de 2017, algo, em particular, me chamou atenção: uma placa em forma de ramalhete afixada na fachada de um prédio no bairro do Chiado, com uma inscrição “Homenagem aos bombeiros que lutaram para apagar o incêndio que acometeu o Chiado”. Não lembro de ter visto a data. Fiquei pensativa com o fato, pois vi os horrores dos incêndios ocorridos entre Coimbra e o Porto, nos dias 15 e 16 de outubro de 2017. Continuei andando. Tinha o lugar certo para ir: a livraria Bertrand (considerada a mais antiga do mundo). Tão logo entrei, vi, entre os livros mais vendidos, um romance que contava

outra tragédia portuguesa: o Terremoto que arrasou Lisboa. Aí eu pensei “Que país cheio de tragédia!”. Fui buscar outras informações e vi que no dia 01 de novembro de 1755, a cidade de Lisboa, ao mesmo tempo que comemorava o Dia de Todos os Santos, foi devastada por fenômenos naturais subsequentes: primeiro um terremoto em grandeza inigualável (9 pontos em uma escala de 10), com duração aproximada de 6 minutos e mais outros em escala menor, o que deu um tempo de 15 minutos de abalos da terra. Depois, houve um tsunami. Matou os sobreviventes que foram se abrigar na baixa do Chiado. Por fim, um incêndio provocado pelas velas caídas nas igrejas, pois era dia de muita reza aos santos. E a partir dos fogões das casas destruídas pelos tremores.  Morreram milhares de pessoas. Fome, frio, sede, pilhagens aos mantimentos. O Dia de Todos os Santos antecipara o Dia dos Defuntos. Ainda, descobri que, um ano depois, em 1756, surgia, em um contexto eminentemente popular, uma prática de se pedir “Pão por Deus”. Renascia, assim, a tradição do “Pão por Deus”, cujas raízes estão afixadas num ritual pagão do século XV. Na Lisboa pós-terremoto “este costume consistia em fazer uma esmola de pão, por alma dos mortos de cada família afetada pelo tremor de terra. Com o tempo, o conteúdo da dádiva foi-se alterando, mantendo-se o sentido com que é feita” (A). Um exemplo dessa permanência e dessa mudança foi narrado por Soeiro Pereira Gomes, escritor português e comunista, no romance “Esteiros”. O primeiro parágrafo do capítulo 4 narra

 

“1 de Novembro. Dia de Todos os Santos e de pão-por-Deus. As crianças espalham-se pelas ruas e batem às portas.

- Pão...por Deus...

Nas arcas há nozes e castanhas e figos secos...A tradição manda que não se encham bornais com <<tenha paciência>>. Os pobres tiram o pão da boca para os filhos dos pobres. E os ricos sacodem as migalhas, em nome de Deus.

Dia de Todos os Santos – dia de todos os pobres”

 

Em Coimbra (B), no 2 de novembro, é a Festa dos Fieis Defuntos. Apesar disso, os rapazes saem recitando versos e fazem seus pedidos (C). Não é mais o Páo-por-Deus...

 

 

Bolinhos e bolinhós

Para mim e para vós,

Para dar aos finados

Que estão mortos e enterrados

À porta da velha: truz, truz, truz!

A senhora está lá dentro

sentada num banquinho.

Faz favor de vir cá fora

para nos dar um tostãozinho ou um bolinho.

 

Quando recebiam uma guloseima respondiam

 

Esta casa cheira a vinho,

aqui mora algum santinho (ou anjinho).

Esta casa cheira a broa,

aqui mora gente boa.

 

Quando recebiam uma negativa, a resposta pronta, malcriada e em versos também vinha.

 

Esta casa cheira a alho

aqui mora algum espantalho.

Esta casa cheira a truta

aqui mora algum filho da p..

 

 

Podemos ver que “antes do Halloween era o Pão-por-Deus” (D4) feito de rezas, prantos, lágrimas e risos. Virou doces, nozes, castanhas...

 

Minhas perguntas são: Este costume chegou ao Brasil? Onde? Isso já nos leva para a história da próxima semana. Até lá...

___________________________________________________________________

A1) O culto dos mortos e o mês das almas. AÇORIANO ORIENTAL DOMINGO, 4 DE NOVEMBRO DE 2012.

B2) As festas do Calendário Popular. Teófilo Braga. 

C3) Luísa de Nazaré Ferreira. A Canção ródia da Andorinha. Boletim de Estudos Clássicos — 46

D4) Rosa Ruela. Antes do Halloween era o Pão-por-Deus. http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2017-10-31-Antes-do-Halloween-era-o-Pao-por-Deus

 

 Prof. Rozelia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

Imagens foram retiradas de :

http://asenhoradomonte.com/2017/11/01/tradicao-pao-por-deus/

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