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ALFENIM: O DOCE DAS MIL E UMA NOITES E OUTRAS HISTÓRIAS

October 21, 2017

 

 

A cozinha tem uma linguagem, uma gramática que dá sentido aos produtos e os transforma em alimentos. Assim como ela (a cozinha e sua linguagem) é capaz de falar suas origens e histórias. Um dos modos de analisar essa História é através do Título da Receita. Um título de uma receita poderá falar de um patrimônio global, nacional, regional ou local. Uma receita de comida fala de muitas coisas. Ora pois! A doçaria, como não pode deixar de ser, é um cruzamento cultural, a partir do momento que a cana de açúcar é árabe, foi introduzida na Península Ibérica e posteriormente chegou à Ilha da Madeira e aos Açores. Da Ilha da Madeira, foi trazida para o Brasil, ainda nos primeiros tempos da colonização portuguesa no “Novo Mundo”.

 

PANID, ALFANIDH, ALFENID, ALFENIM: nomes diferentes para uma comida igual. Mas, o que é “Alfenim”? De onde vem essa palavra? O que ela significa na gramática da cozinha?

 

 

Alfenim deriva de uma palavra persa “panid”, passando pelo árabe “Alfanidh”, de onde chegou ao português como “Alfenid”. Depois, anasalou para Alfenim. Para maior compreensão dessa palavra, é preciso saber que, se existiu a “Alcomonia”, uma arte de confecção árabe, também existiu o “Alfenim”. “Al” é o artigo árabe e “fenid” é uma derivação do verbo árabe “fenique” que significa “por ou meter na boca alguma coisa muito delgada”. A pensarmos, “Alfenim” é um doce de massa muito fina e delgada que derrete, ao ser colocado na boca.

 

A consulta aos dicionários do Português, escritos no fim do século XVIII (1793) e começo do XIX (1803) registraram que “Alfenim” é um doce árabe. É uma massa de açúcar cozido que, depois de puxado inúmeras vezes, se faz branco e dele se faz inúmeras formas. Os árabes não faziam animais. Os portugueses é que usaram para fazer pombos, veadinhos, etc.

 

 Expansão Muçulmana

 

ALFENIM: O DOCE DAS MIL E UMA NOITES E DE OUTRAS HISTÓRIAS

 

As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e de contos da tradição oral do Oriente Médio e do sul da Ásia. Depois esses contos foram reunidos em manuscritos árabes, que lhe deram características diferenciadas. Porém, o que torna essa coletânea em algo bem original é que os contos são narrados de forma encadeada (uma história puxa a outra) por uma mulher chamada Xerazade. Essa eternidade de histórias, contadas ao longo de mil e uma noites, impede que ela seja morta pelo rei Xariar. Essa astúcia de Xerazade e as histórias conquistam o rei, de modo que ele desiste de matá-la. Em uma delas, Xerazade narra a história de um carregador de feiras e de três jovens moradoras de Bagdá. Intitulada “O carregador e as três jovens de Bagdá”, a história registra a compra de vários doces, dentre os quais está o Alfenim...“Uma bela jovem de grandes olhos negros e pestanas alongada põe-se diante do carregador e lhe chama para segui-la por vários pontos de compra e ele caminhou até que ela se deteve diante do doceiro, de quem comprou uma bandeja cheia com tudo o que ele tinha: doces e pães ao modo armênio e cairota, pastéis almiscarados com recheio doce, bolos e confeitos como mãe-de-sǡlih amolecida, doce turco, bocados-para-roer, geleia de sésamo, pentes-de-âmbar, dedos-de-alfenim”. E a narrativa seguiu com uma lista incontável de sabores doce, inclusive o bolinho-de-chuva.

 

 

No século XVI, o Alfenim aparece citado em obras literárias de Gil Vicente e de Jorge Ferreira de Vasconcelos por ser uma gulodice popular em Portugal.

 

No século XVII apareceu no Brasil, nas poesias de Gregório de Matos, mas como exemplo de pessoa frágil, sensível.

 

No Brasil do século XX, foi incorporado por Cecília Meireles, em uma de suas poesias.

 

...Diremos versos em im

Algum provébio em anexim

e comeremos alfim

não alfim, mas alfenim

 

DAS MIL E UMA NOITES PARA AGRESTINA - PERNAMBUCO

 

Com a invasão árabe à Península Ibérica, ocorrida por volta do Século VIII, houve a incorporação de suas comidas à alimentação portuguesa. Provavelmente foi nesse mesmo período que houve a confecção do Alfenim, usando o açúcar ou melaço de cana, velhos conhecidos dos árabes. A principal influência se deu ne doçaria na região do Algarve (sul de Portugal). Em 1465, algumas famílias do Algarve povoaram a parte oeste da ilha Terceira, ou ilha de Jesus Cristo, localizada no arquipélago dos Açores e, possivelmente, poderão ter introduzido esta arte de confeccionar o açúcar e transformá-lo em “alfenim”.  

 

 Preparação do Alfenim. Agrestina-PE

 

 

Em 1500, houve a chegança dos portugueses à Terra de Vera Cruz, depois Terra de Santa Cruz e depois Brasil. Em 1534, Duarte Coelho Pereira, chegou à Capitania de Pernambuco e deu início à plantação da cana de açúcar. Com os colonizadores portugueses vieram seus hábitos e costumes alimentares. E assim, passou-se à confecção dos doces e com eles, a fabricação do “Alfenim” ou “Alfeninho”, doces da tradição mourisca que, segundo Gilberto Freyre, adquiriam a “forma de gente, de cachimbo, de bicho, de árvore, de estrela. Com a ocupação dos sertões (os lugares fora da Costa) deu-se a difusão dos hábitos alimentares portugueses pelo interior da Província. O Alfenim seguiu o “Caminho do Gado”.

 

 

Na contemporaneidade, o doce faz parte do cardápio dos “Doces de Festa Religiosa”, vendidos em Agrestina, interior de Pernambuco. Segundo informações colhidas no sítio eletrônico do “Slow Food” “Em Agrestina, interior de Pernambuco, a família Zacarias Santos mantém a produção do doce no município há sete gerações e é responsável por repassar a receita para outras famílias da região. O doce é presença indispensável na Festa de Nossa Senhora do Desterro (durante a qual uma grande quantidade é produzida e comercializada), mas pode ser encontrado durante todo o ano na cidade e em alguns municípios vizinhos (como Bonito, São Joaquim do Monte, Panelas, Cupira e Caruaru). Constitui uma lembrança típica de quem visita Agrestina”.

 

Das Mil e uma Noites o Alfenim veio parar em Agrestina!

 

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Do produtor até você!

O Alfenim adoçou a vida de muita gente antes dos doces industrializados que temos hoje. Se você quer experimentar esse doce com sabor de infância, acesse nossa loja.

Nós trazemos de Agrestina a sua casa!

 

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1- https://www.slowfoodbrasil.com/arca-do-gosto/produtos-do-brasil/1131-alfenim.

 

 

Prof. Rozelia Bezerra
É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

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