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Com açúcar, com afeto fiz seu DOCE predileto

October 7, 2017

 Tabuleiro de Quebra-queixo, ou Japonês no bairro de Dois Irmãos. Recife-PE. 2017

 

Durante a semana que passou se deu um longo debate, sobre a nomenclatura de um doce de tabuleiro vendido nas ruas do Recife. Uns a defenderem, outros a condenarem o gosto pela doçaria dita de Pernambuco. A dúvida girou em torno de saber se era “doce japonês” ou “quebra-queixo”. Uma leitora da página, agindo de maneira precavida, foi às fontes de informação e mostrou que são sinônimos, que “é uma designação comum a vários tipos de doce à base de açúcar, coco ralado, goiaba, castanha e outros sabores, vendidos nas ruas das cidades nordestinas”. Daí, fui atrás de mais alguma coisa e achei um artigo da FUNDAJ descrevendo os pregões do Recife o qual ratificou a indicação da existência dessa sinonímia” “quebra-queixo, também conhecido como “japonês”, cujo vendedor usa a gaita para anunciar seu produto, além de gritar “Ja-po-nês! Dooooce japonêêês! A própria FUNDAJ, em outra pesquisa sobre a Doçaria Nordestina, revelou que os doces são comuns no Nordeste. Algumas, são vendidos em tabuleiro em diferentes lugares da cidade e nomeia seus tipos, reforçando a teoria de quebra-queixo e japonês serem sinônimos: “pão doce, bolo de bacia, bolo de goma, tareco, bolo cabano, bolo de milho, bolo de goma, pé de moleque, arroz doce (com leite de coco), alfenim, castanha de caju confeitada, “doce japonês” ou “quebra-queixo” – feito com açúcar, coco e outros ingredientes (goiaba, banana, castanha, amendoim), o que define o seu sabor”.

 

Só para botar mais lenha nessa fogueira, fui atrás de outras fontes de informação e encontrei o seguinte:

 

No Dicionário de Termos Nordestinos - Palavras e expressões nordestinas, pesquisadas e dicionarizadas a partir de textos colhidos da internet a aprofundada pela vivência pessoal de Gilberto Albuquerque, um paraibano de Campina Grande e radicado em Maceió, não existe a nomenclatura de “Doce Japonês” e sim QUEBRA-QUEIXO - Puxa-puxa. Cocada que gruda nos dentes.

 

A mesma coisa achei no Pequeno Dicionário da Gula, da autoria de Márcia Algranti. Está lá, na página 425 “QUEBRA-QUEIXO” – doce de origem pernambucana, também conhecido como Puxa-Puxa, que recebe esse nome devido à sua consistência elástica e grudenta”.

 

A busca em outras fontes jornalísticas mostrou a mesma significância de nomes “Quebra-queixo, japonês, puxa-puxa. O doce lembra a infância de muitos brasileiros, em diversas regiões. Castanha, amendoim, coco com goiaba, batata doce e coco queimado são algumas opções de sabores. Vendido nas ruas, em tabuleiros, tem gosto inconfundível”.

 

Por sua vez o Dicionário das Manifestações Folclóricas de Pernambuco, datado de 2006 (p.98), trouxe a nomenclatura de “Japonês”. Segundo sua autora, esse nome é uma alusão aos tabuleiros orientais. É “uma guloseima típica de Pernambuco, espécie de doce consistente feito com açúcar, frutas, raladas ou cortadas em pequenos pedaços, cravo da índia e, às vezes, erva-doce. Os vendedores ambulantes de japonês carregam um tabuleiro sobre a cabeça e anunciam sua passagem tocando gaita”. É uma das formas de “pregões” do Recife.

 

Foto: Roberta Guimarães/Divulgação

 

Essa polêmica se perde ou fica mais rica se formos pensar sobre o que é DOCE e sua origem. Pensar que DOCE é um “nome genérico para preparações com açúcar, mel ou adoçante”. É uma sobremesa, guloseima, energético e fonte de calorias. Pensar que não é de origem brasileira e foi trazido com as colonizadoras portuguesas que, por sua vez, aprenderam das mulheres árabes. Afinal Portugal só conheceu o açúcar quando os mouros invadiram e dominaram suas terras. Era produto de botica. Das casas fidalgas, os doces passaram para os conventos portugueses. Deram origem à DOÇARIA CONVENTUAL. Guloseimas feitas para agrado dos amantes que se acercavam desses monastérios. DOCES FEITOS COM AÇÚCAR, COM AFETO. Ou para gerar renda aos conventos. Doces que receberam nomes de santas como os “Pastéis de Santa Clara”, outros nomes como “Pudim de Madre Paula” ou “Barriga de Freira”, “Tortinhas do Paraíso” ou “Tortinhas do Céu”, “Manjar do Céu”, “Toucinhos do Céu”. Doces fartos de açúcar e ovos, muitos, cuja utilização na culinária se restringia às gemas. Doces que acabaram chegando a Pernambuco, com as primeiras levas de mulheres vindas com Duarte Coelho Pereira, lá pelos idos de 1535. Oriundas de Viana do Castelo, cá chegaram e cá se instalaram, primeiramente em Igarassu, depois em Olinda. Viram, então, que não tinham os mesmos materiais para fazerem seus doces de afeto. Tinham açúcar em abundância, mas não tinham marmelo, nem pera, nem maçãs, nem laranja. Adotaram nossas frutas: caju, mangaba, goiaba, abacaxi, araçá, banana da terra. E, mais, como não tinham nozes, nem amêndoas, adotaram o amendoim, tão brasileiro. O “mendubi” dos indígenas. Adotaram as raízes, como a batata-doce. Delas fizeram doces e compotas. Doces em pasta “massas bem macias e doces para os amigos que ficaram em Lisboa, Porto e Viana do Castelo”, conforme atesta Câmara Cascudo.

 

 Seu Danda vendedor de doces do Alto José Bonifácio

 

Só muito tempo depois, veio o coco. Da Ásia. Chegou à Bahia em 1553. Foi parar na panela das sinhás, conforme Manoel Querino, e no tabuleiro das escravas de ganho e, assim, ganhou as ruas. No Rio de Janeiro, do século XIX, foi vendido em modo de “cocada”, nos tabuleiros, conforme a ilustração de Debret em os “Refrescos do Largo do Palácio”. No Recife, foi para os tabuleiros das “pretas de tabuleiro”, conforme o registro de Gilberto Freyre.

 

Hoje, continua no tabuleiro do vendedor de “japonês” ou “quebra-queixo” que, em sua bicicleta ganha as ruas do Recife.

 

Porém e conforme se viu, o doce pode ser o céu na boca. É de afeto. Mas, um dia, o doce também foi dor de negro, de mulheres abandonadas e encarceradas em monastérios.

 

O doce tem lágrimas.

 

Prof. Rozelia Bezerra
É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

 

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