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PORTUGAL, MEU AVOZINHO, QUE SABORES E SABERES NOS DESTE?

October 1, 2017

 

Sou originária de uma família simples do interior de Pernambuco. Uma família grande que, entre homens e mulheres, somava 14 irmãos. Havia uma tradição familiar de contar histórias. Minhas duas irmãs mais velhas, nos davam livros de presente. Uma outra, se encarregava de contar histórias. Não fazia isso de dia. Segundo ela mesma “contar história de dia cria rabo”. E isto já era uma história que nos enchia de pavor! Ela nos contava história nas noites de lua cheia, no terreiro da casa, reunidos embaixo do pé de castanhola.

 

Nossa vó paterna, Mãe Maria, contava a história do “Velho do Surrão” quando queria que ficássemos quietos, em sua casa. Ela fazia isso na sua cozinha, próximo ao fogão à lenha.

 

Nosso pai contava histórias de Camões. Sentado na cadeira de balanço, geralmente, depois do almoço, enquanto eu lhe fazia um cafuné e “catava piolho”. Ele nos dizia que Camões era um homem muito inteligente e, com muita astúcia sempre, vencia o rei de Portugal. Lembro de uma dessas histórias:

 

Certa vez, Camões ia passando, quando o Rei perguntou:

- Camões, qual é a melhor comida do mundo?

Camões respondeu:

- Ovos cozidos, meu rei.

Depois de passado muito tempo, Camões voltava de viagem e, de novo, se encontrou com o Rei que, sem maiores preâmbulos, lhe perguntou:

- Com que, Camões?

Imediatamente, Camões respondeu:

- Com sal, senhor.

 

Muito tempo depois descobri que meu pai nos contava histórias de um folheto de cordel que circulava no Nordeste do Brasil, cujo título é “As Perguntas do Rei a Camões”.

 

De outras vezes, era nossa mãe a narradora de contos. Ela, sempre brava e muito ocupada com tantas crianças, quando resolvia contar histórias, narrava as de Pedro Malasartes. Uma das que mais gostávamos de ouvir era a de “Pedro Malasartes e a sopa de pedra”.

 

Pesquisando sobre a gastronomia portuguesa descobri que, de fato a “Sopa de Pedra” tem uma lenda associada. Em Portugal, ela é contada na região de Almeirim, no Alentejo.

 

 

 

Eis a narrativa.[1]

Um frade andava no peditório. Chegou à porta deum lavrador, não lhe quiseram aí dar esmola. O frade estava a cair com fome, e disse:

- Vou ver se faço um caldinho de pedra!
E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela, para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança.
Perguntou o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa boa.

Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso!

Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, pediu:
- Se me emprestassem aí um pucarinho.
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora, se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, tornou ele:
- Com um bocadinho de unto, é que o caldo ficava um primor!
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada pelo que via. Dizia o frade, provando o caldo:
- Está um bocadinho insosso. Bem precisava de uma pedrinha de sal.
Também lhe deram o sal. Temperou, provou e afirmou:
- Agora é que, com uns olhinhos de couve o caldo ficava que até os anjos o comeriam!
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras.
O frade limpou-as e ripou-as com os dedos, deitando as folhas na panela.
Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:
- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça.
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço. Ele botou-o à panela e, enquanto se cozia, tirou do alforje pão e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço. Depois de despejada a panela, ficou a pedra no fundo. A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou:
- Ó senhor frade, então a pedra?
Respondeu o frade:
- A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.

 

 

 

Pode ainda aqui fazer download da receita oficial do livro da confraria gastronómica de Almeirim, que poderá imprimir para adicionar ao seu livro de receitas.

 

Tem ou não tem razão o poeta Manuel Bandeira quando pergunta “Como foi que temperaste, Portugal, meu avozinho, esse gosto misturado de saudade e de carinho? ”.

__________________________________________________________________________________

[1] http://www.cm-almeirim.pt/conhecer-almeirim/gastronomia/item/205-a-lenda-da-sopa-da-pedra.

 

Prof. Rozelia Bezerra
É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

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