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ARTE: PALAVRA-ARMADILHA

September 16, 2017

DIAS, CÍCERO / AUTVIS, 2015
Eu vi o mundo...e ele começava no Recife, déc.20.

 

 

Nesta semana conturbada por censura em torno das obras de Arte, minha pergunta vai nesse sentido: O que é Arte? Pensei nessa palavra como sendo uma armadilha. Daí, fui buscar no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa[1](A) seu significado e lá está (p.60): Arte, s.f ‘malícia, engano’; ‘conjunto de preceitos para a execução de qualquer coisa”. Ora, ora, ora! Temos nossas primeiras armadilhas. Sendo engano e malícia, pode ser vista como sinônimo de Belo e Beleza? Sendo malícia e engano, como pode ser considerada bela? O que é Beleza? Ou cairemos no caldeirão das Bruxas de Macbeth quando dizem “o bonito é feio e o feio é bonito”? Ou isto nos mostra que não existe feio e bonito? Estas categorias estão, apenas, no campo das palavras? Ou a beleza estaria nos olhos de quem olha? Sendo “malícia e engano” poderemos encontra-la no campo da Arte Literária e seus personagens: os bufões, de Shakespeare; Pedro Malasartes (que traz, no nome a palavra Arte); Bocage e suas aventuras cantadas em verso e tantos outros...Na comédia, que Aristóteles rebaixa à categoria menor de Arte porque fala de coisas feias e baixas. O humor preconceituoso de nossos dia é um bom exemplo disso.

 

Ficando, ainda, com filósofos para entender melhor o que é Arte, me deparei com Platão dizendo que Arte é uma forma de penetrar no mundo real e no mundo das ideias. Do Absoluto, lugar onde mora a Beleza. É reminiscência de conhecimentos adquiridos anteriormente. Encontrei Platão me dizendo que a Beleza está nos olhos de quem vê. Mas, só se vê bem se morrermos, se matarmos os sentidos comuns e relacionados ao corpo: visão, audição, tato paladar e olfato. Para ver a Beleza, precisamos enxergar com o Espírito, a quem ele chamou de Razão. Razão espiritual. Então, já vemos como Saint-Exupéry se apropriou da teoria platônica para escrever “O Pequeno Príncipe”. Tudo fica tão límpido...

 

E voltou, então, à raposa:

 

- Adeus... ---- disse ele.

- Adeus – disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.

- O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para não se esquecer.

 

Imagem 1: Guernica. Picasso, França, 42.

 

Sendo ‘conjunto de preceitos para a execução de qualquer coisa”, pode-se pensar em Arte Culinária; Arte da Guerra, etc. E nesse contexto fui até a Idade Média e vi que, nesse perído, foi criada uma categoria de Arte, as “Artes Mecânicas” nas quais estavam incluídas aquelas funções que exigiam o uso do corpo e, assim sendo, eram artes menores. Foram estabelecidas 7 artes mecânicas:  Culinária (Coquinaria); Vestiaria (costurar e tecer), Agricultura, Architectura (planejar e construir) Militia e Venatoria (vida militar e da caça) a Mercatura (comércio) e a Metallaria (ferraria e metalurgia). Mais uma armadilha que a Arte usa para nos prender e, ao mesmo tempo, nos mostrar que essas categorias de Arte atravessaram tempos e nos colhem em nosso cotidiano.

 

 

Obra de Francisco de Goya (imagem 2)

 

Como não poderia deixar de ser fui consultar Aristóteles. Na sua obra “Poética” Arte é palavra (logos) e é imitação. Para ele “os imitadores imitam pessoas em ação”. Sendo assim, é possível compreender que a Arte funcione como instrumento de denúncias de injustiças sociais, dos injustiçados, dos que têm sua voz roubada, calada. Pode ser uma expressão dos invisíveis sociais. Pode mostrar os horrores da Arte da Guerra. É só olhar o quadro Guernica (imagem 1), de Pablo Picasso, registrando os horrores o bombardeio da cidade basca chamada Guernica, realizado pelas tropas nazistas em apoio ao generalíssimo Franco. Ou olhar a obra de Francisco de Goya (imagem 2), registrando medos, sofrimentos e angústias humanas. E mesmo obras que foram censuradas, recentemente, na cidade de Porto Alegre mostrando o silêncio ante o sofrimento do mundo queer (imagem 3).  Isso, para ficarmos em imagens. 

 

o sofrimento do mundo queer (imagem 3).

 

Porque se formos pensar como Aristóteles “o homem é um ser dotado de palavra” iremos para as Artes Literárias, Nesse caso, escolhi Carolina Maria de Jesus[2], escritora negra, brasileira, que em 1960 escreveu “A tontura da fome é pior que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago”.

 

Se formos pensar com(o) os censores da contemporaneidade, que vêm pornografia em toda parte, queimamos a Bíblia, livro sagrado dos cristãos. Lá está escrito, no livro “Cânticos”...

 

...Levou-me ele à adega

E contra mim desfralda

Sua bandeira de amor.

Sustentai-me com bolos de passas,

Dai-me forças com maçãs, oh!

Que estou doente de amor...

 

Sua mão esquerda

Está sob minha cabeça,

E com a direita me abraça

 

- Filhas de Jerusalém,

Pelas cervas e gazelas do campo,

Eu vos conjuro:

Não desperteis, não acordeis o amor,

Até que ele o queira.

 

Por fim, quis me aproximar de nosso tempo e fui ler Ariano Suassuna[3] (C). Ele viu a Arte como “dom criador, o espírito animador e, ao mesmo tempo, o conjunto de todas as Artes, incluindo-se entre estas, tanto as Artes plásticas quanto as literárias, tanto o Cinema quanto a Poesia, o Teatro como Dança”. Nesse conceito, nos aproximamos de outra armadilha da palavra Arte, posto que ela se mistura com as formas de ser expressada. Aí nos deparamos com diferentes artifícios. Sendo Arte “o espírito animador” poderíamos dizer que Suassuna se aproxima de Platão? Não sei...só sei que foi assim que ele se expressou. Deixo a vocês o privilégio da dúvida!

 

 

Torre de Cristal. Francisco Brennand. Recife. 2000. Orgulho dos Pernambucanos

 

______________________________________________________________________________

[1] A) CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Léxikon; FAPERJ, 2007.

 

[2] B) JESUS, Carolina Maria. Quarto de Despejo. São Paulo: 1960.

[3] C) SUASSUNA, Ariano. Iniciação à Estética. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.

 

 Prof. Rozelia Bezerra
É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

 

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