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EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO: meu encontro com Lula Cardoso Ayres

September 9, 2017

Fabrica da Pilar no Bairro do Recife, decada de 50.

 

Quando eu era criança tive sarampo. Ainda morava em Gravatá do Jaburu. Tenho lembrança que, em minha convalescença, minha mãe e minha irmã mais velha (agora mora no Rio de Janeiro) me deram para comer biscoitos creme craque (cream craker) e guaraná (sem ser gelado porque não tínhamos esse luxo). Lembro-me do escurinho do quarto e do sabor desses alimentos, reconfortantes, em meio ao sofrimento de uma doença tão séria. No início de 1965, saímos de Gravatá do Jaburu e fomos morar em Caruaru. Primeiro ano da ditadura militar. Anos de chumbo. E, de novo, me ofereceram biscoito. Era de tarde e acompanhava minha mãe em uma visita a uma velha conhecida dela, Dona Oscarina. Costureira, era a mãe de Luíza, minha provável madrinha de crisma (isto nunca se realizou porque não fui crismada). Chegou a hora do lanche: me serviram biscoitos de maisena com guaraná (lembro que tinha tanto gás no refrigerante que, ao arrotar, saía pelo nariz). Agora, estou em 2017, temos um novo golpe de estado. Em meio a essas tristezas políticas e sociais, tive a oportunidade, rara e benfazeja, de acessar uma parte visual dessa memória alimentar tão distante. Através desse encontro, compreendi que minhas memórias caminham com os primeiros passos da História da Alimentação em Pernambuco. Pelo menos foi isso que senti ao consultar, para uma das atividades docentes, o Catálogo da exposição intitulada: LULA CARDOSO AYRES: Arte, Região e Tempo (A). É disso que quero falar. Assim, partilho com vocês, leitores e leitoras, as imagens de minhas memórias de sabores. Do meu encontro com Lula Cardoso Ayres, na esperança de que cada pessoa construa sua própria memória.

 

Lula C. Ayres. Embalagem para os biscoitos Maizena da Pilar. S.d.

 

BISCOITOS PILAR: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

O que é “Biscoito”?  O Pequeno dicionário da Gula, da autoria de Leila Mezan Algranti, diz que, no passado, “biscoito” significava “assado duas vezes”. Na contemporaneidade significa uma guloseima fabricada a partir de pequenas quantidades de massa usando mais de um tipo de farinha, adoçada. Algumas vezes podem levar especiarias, essências ou mesmo frutas. Assim começa nossa conversa...

 

Houve um tempo no qual o Recife tinha portas. Havia, entretanto, uma pequena faixa de terra chamada Fora de Portas e que, hoje, corresponde ao Recife Antigo. Pois, nesse tempo das portas havia a Capela de Nossa Senhora do Pilar e, no entorno de sua praça havia a Rua Nova do Pilar. Foi assim que, em 1875, quando português Luiz da Fonseca, criou uma “padaria e uma biscoutaria” não hesitou em batizá-la de “Padaria e Biscoutaria Pilar”, localizada atrás da Igreja de Nossa Senhora do Pilar. Nessa época, biscoito era importado da Inglaterra e, por isto, um alimento muito caro, acessível, somente, às classes mais abastadas (b). Aos burgueses do Recife. E, assim, as ruas do velho Recife da região portuária se encheram de um novo cheiro que não era mais só aquele do mar: era o cheiro adocicado dos biscoitos. Ou, como disse Joca Souza Leão “o bairro do Recife cheirava a biscoito, açúcar e mar”.  Mas, o que isto tem a ver com Lula Cardoso Ayres? É que, muito tempo depois, embora sem data certa, ele criou a embalagem para o biscoito Maizena da Pilar.

 

Lula Cardoso Ayres. Embalagem para Bem te vi. Coleção Lula Cardoso Ayres Filho. s.d.

 

SAL, CAFÉ, MARGARINA BEM TE VI...AÇÚCAR, MARGARINA BEM TE VI

Na década de 1970, a televisão ainda transmitia nas cores branca e preta. Nessa época foi veiculada uma propaganda na qual um menino e uma menina, montados numa charrete, seguiam para as compras enquanto diziam os gêneros alimentícios que deveriam comprar. Pela estrada, iam recitando, como para não esquecer: “Sal, café, fubá, açúcar, margarina... Que margarina? Bem-te-vi!”. Nesse momento, se ouvia um assovio, e uma ave, um Bem-te-vi, saía voando de trás da charrete. Quem se lembra desse comercial?

 

Foi na década de 1970, que saímos da Rua Floriano Peixoto, 134,  e fomos morar no bairro Petrópolis, ainda em Caruaru. Passados quatro anos, nós perdemos todos os bens. Inclusive a casa de morada. Não houve mais biscoito, nem guaraná. Mas, Lembro que, um dia, teve açúcar e margarina Bem-te-vi. Pois, misturei um pouco de cada um e comi. Meu Deus! Que delícia.  Era difícil e raro ter acesso ao alimento. Nós éramos muitos: 14 filhos. Meu pai lutava, cotidianamente, para colocar alguma comida em casa. Minha mãe costurava, a fim de colaborar com a renda. Irmãos e irmãs mais velhos, faziam o mesmo. Nós, os mais novos, parecíamos passarinhos no ninho: sentíamos fome.

 

Mas, o que é margarina? Palavra de origem grega – margaron – significa “cor pérola”. O primeiro produto dessa natureza data de fins do século XIX e tinha, em sua composição, “sebo de boi, leite desnatado e úbere de vaca picado”. Calma! A legislação brasileira, datada de 1997, estabeleceu que a margarina deve ser um produto gorduroso, contendo leite ou seus constituintes ou derivados. Tem outros produtos, é bem verdade, mas avançou na questão. Pelo menos espero, pois, a margarina Bem te vi foi criada na década de 1960. Era comercializada na forma de tablete. Embrulhada em papel tipo laminado, trazia “uma logomarca que permaneceria por três décadas: uma ilustração estilizada do pássaro em preto e amarelo, de poucos traços e formas geométricas, sobre o nome do produto na cor branca em fundo vermelho. Um detalhe: à época, o nome ainda era escrito sem os hifens (C)”. Aí se encontrava o gênio criador de Lula Cardoso Ayres. Ele foi o desenhista dessa logomarca.

 

Pois, aí se deram meus encontros com a história da fome, do comer. As memórias, os afetos, o olfato. O riso, o choro. A alegria de me encontrar com Lula Cardoso Ayres e trazer os resultados de nossas aventuras pelo mundo dos sabores e saberes.

 

 

 

_________________________________________________________________________________________

 

(A) Todas as imagens usadas nesse texto foram retiradas do Catálogo da Exposição: LULA CARDOSO AYRES: Arte, Região e Tempo, realizada no Recife, entre junho e agosto de 2017, no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal.

 

(b) Dados retirados do site: http://www.pilar.ind.br/#!/linhadotempo. Data de acesso: 07 de setembro de 2017.

 

(C) Caderno de pesquisa Linha Bem-te-vi. Centro de Memória Bunge. São Paulo, s.d.

 

 

 

Prof. Rozelia Bezerra
É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

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