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CARTA PARA UM POETA OU A (DES)ENCANTADORA ALMA DAS RUAS DO RECIFE

September 2, 2017

 A tua alma acorda quando o desertador toca?

+ Fé,  Lipe,

Acabei de ler teu livro mais novo, intitulado “Tua alma acorda quando o despertador toca? ” Percebi que falas da (des)encantadora alma das ruas do Recife. A certa altura, tu escreveste “Recife não tem memória! Teus muros gritam. Teus poetas, esquecidos nas pontes hoje são só estátuas”. Soube, logo, que tu estava te referindo ao “Circuito da Poesia” [1].  Teus tiros, certeiros, atingiram meu mais profundo eu. Imediatamente parei a leitura porque me senti atingida, em cheio, por teu projétil. E digo isto porque, ultimamente, tenho flanado pelas ruas do Recife, acompanhada de estudantes da Licenciatura em História, a fim de conhecer a alimentação dessa cidade, cantada por seus poetas que compõem o Circuito da Poesia. Só retomei a leitura, horas mais tarde.  Ao vê-los paralisados por teus versos, pensei em Sodoma e Gomorra e nas pessoas transformadas em estátuas de sal. Viajei nas ruas do Recife cheia de estátuas de sal. Apesar disso, senti um certo sopro de esperança, com teu poema, porque teus versos sobre as ruas do Recife, bem a teu modo, ecoam as palavras dessas estátuas de sal. Daí eu senti como se elas tivessem sido salvas da condenação à morte perpétua. E por que digo isso? Porque, vocês todos, cada uma/uma, a seu modo, descrevem A (DES)ENCANTADORA ALMA DAS RUAS DO RECIFE.

 

Mas, o que eu sei de rua? A rua do poeta é outra. Para João do Rio, um poeta carioca, “Rua”, vem do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia”. Mas, também, ele acha que a “rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! ”.  E, foi a partir disso que fui procurar a alma das ruas do Recife, na poesia desses árcades petrificados, em seus (des)encontros com a alma da cidade e das ruas de Fé Lipe. Achei João Cabral de Melo (1954) dizendo que “as cidades se parecem nas pedras do calçamento das ruas artérias regando faces do vário cimento...Todas as cidades do mundo lembram o Recife e este em todas se situa em todas em que é um crime para o povo estar na rua... em todas em que esse crime traço comum pôs nódoas de vida nas pedras do pavimento”. Ora, Fé Lipe, a (des)encantadora alma das ruas do João está em ti ao escreveres “A face no chão da Metrópole” dizendo que “A cidade muda de face se torna negra como aquela Negra que dorme no papelão Em frente a uma loja de colchão”.

 

E, até, Clarice Lispector flana em tua órbita poética. Ela que, em sua crônica “Restos de Carnaval”, que aos 8 anos, narra o correr pelas ruas do Recife, em pleno carnaval, para comprar remédios para a mãe doente. Fica registrado o (des)encanto no qual ela ficou “perplexa, atônita, entre serpentina, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava”. Este (des)encanto de Clarice não se distancia do teu poema “Os homens e mulheres e crianças de lata”,  no carnaval do Recife em 26/02/2017. Teu (des)encanto ocorreu quando vistes eles e elas “Brincando o carnaval mas sempre com os olhos no chão ligados para poder pescar no meio de tantas pernas as latas que os alimentam”.

 

Tu deste vida a Carlos Pena Filho. Vossos (des)encantos foram os mesmos. Carlos, em seu poema “Chopp”, canta o Bar Savoy, a Avenida Guararapes e a solidão dos bebedores nas mesas. “São trinta copos de chopp, são 30 homens sentados, são 300 desejos presos, 30 mil sonhos frustrados”. E os homens de teu bar? O (des)encanto deles é o mesmo, afinal “Nos bares olhos são gritos Entre mascaramentos e a nudez...Entre copos e corpos segue a comédia desumana que afoga em goles seus anseios”...Esse Recife que acolhe e repele...

 

E, por fim, mas, não menos importante é o renascimento de Manual Bandeira em tua poesia. Se na “Evocação do Recife”, Bandeira buscou “Não a Veneza americana, Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais, Não o Recife dos Mascates, Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois – Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada”. Tu buscaste a “Recife, mulher...Tu e tuas pontes iluminadas Tuas marés, teus luares...Eu, maluco andarilho, ando mirando teus detalhes: a silhueta sensual de tuas pontes, teus rios brilhantes, Teu sorriso belo”.  Vocês se encontram quando dizes que os poetas foram esquecidos e viraram estátuas. Afinal, para que Literatura?

 

Assim, poeta, tenho Fé de que, mesmo transformados em estátuas, esses poetas continuarão vibrantes. E sabes por que continuarão a vibrar? Porque tu continuarás a escrever poesias sobre (des)encantos.

 

Desde Casa Forte, no Recife, em 02 de setembro de 2017.

Reunião com a professora Rozélia Bezerra junho de 2017. Na imagem Igor, Prof Rozélia, Felipe e Laysa

 

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[1] Projeto criado, em 2005, pela Prefeitura do Recife, para homenagear cinco literatos, dentre os quais, só havia uma mulher: Clarice Lispector. Os demais foram: João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Capiba e Carlos Pena Filho, cujos monumentos estão distribuídos em diferentes pontos da cidade. Agora (2017) são 16 estátuas.

 

Prof. Rozelia Bezerra
É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

 

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