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MULHERES NO CANGAÇO (II): LUZIA, “BRAÇO DE GRAMOLA”. LUZIA, “LA COSTURERA”.

August 19, 2017

 

Em agosto do ano de 2011, eu estava em Sevilla e fui conhecer Córdoba. Cheguei na estação de Sevilla, bem antes do tempo previsto. Comprei o bilhete de viagem e fui andar pela estação do trem. Dei de cara com uma livraria e, na vitrine, um livro pulou nos meus olhos. O título da lombada: “La Costurera”[1]. O livro chamou minha atenção porque minha mãe, Dona Adelaide, foi costureira, função na qual se aposentou. Peguei o exemplar e na capa tinha a seguinte chamada “Amor, coraje y aventura en el apasionante Basil de los años treinta”.  Opa! Já gostei. Ao abri-lo, o intenso odor de livro, novo, invadiu minhas narinas. Fechei os olhos e aspirei, profundamente, aquelas folhas. Só depois desse ritual, folheei a obra. Quase caí de costas porque no verso da primeira folha havia um mapa do Nordeste do Brasil e lá estava Taquaritinga do Norte, como centro gravitacional da primeira parte do romance histórico, datada de 1928.

 

 

Pus-me a chorar de emoção e fui lendo, sofregamente e, cada vez mais, me encantava: estavam citados os nomes de personagens reais que, tempos depois, fizeram parte de minha infância vivida em Gravatá de Jaburu, primeiro distrito de Taquaritinga do Norte. Estavam lá: o padre Otto (Casou meu pai e minha mãe, às 7 horas da manhã do dia 10 de maio de 1942, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição – Gravatá do Jaburu. Depois, foi o padrinho de crisma de meu irmão mais velho). O coronel Severino Pereira (dono da fábrica de tecido com os quais minha mãe fez tanta roupa para nós). O coronel Chico Heráclito, de Limoeiro, cujos filhos, inúmeros, passavam férias em uma de suas fazendas no interior de Gravatá do Jaburu e, sempre a cavalo, eram muito barulhentos.  O coronel Clóvis Lucena, o coronel Guilherme de Pontes, de Caruaru e de quem ouvíamos falar quando íamos à essa cidade...Tudo rodopiou em minha memória. E pensei: “o que Gravatá do Jaburu está fazendo em Sevilla”? Hora de embarcar. Parei de ler para não perder a paisagem.

 

 

Voltei à noite. Retomei a leitura. E fui descobrindo o enredo. Duas irmãs: Emília e Luzia. A primeira sonhava casar. Assim o fez, com um rapaz, gay, de família influente do Recife. A segunda, Luzia, após cair do alto da mangueira quebrara um braço e por isto passou a ser chamada “Braço de Vitrola” (Gramola). Apelido redutor da pessoa ao defeito físico adquirido acidentalmente. Luzia, inteligente, corajosa, libertária. Sonhava vestir-se de homem e fugir com os cangaceiros. Um dia foi levada pelo “Falcão”, o líder de um bando de cangaceiros que passava pelo lugar.  Atuando desde a região de Taquaritinga do Norte às margens do São Francisco, eles e ela travaram uma luta ferrenha, entre outras várias coisas, contra a implantação de uma estrada, que no Nordeste seria chamada de Transnordestina (atual BR 116 Norte). La Costurera, uma mulher altíssima, sabia ler e escrever. O enredo do romance deixa muito claro: ela foi a responsável por costurar e enfeitar a roupa de todas as pessoas do bando de “Falcão” (assim chamado porque arrancava os olhos das vítimas). Foi da máquina de costura, levada para todo canto, e das mãos hábeis dessa personagem que saiu o vestido que usou na foto dela com Antônio, publicada nos jornais de ampla circulação em Pernambuco. Foi ela quem bordou os matulões, ou embornais, que foram usados pelos homens. Ela, La Costurera, desenhava os adereços de cada roupa. Desse modo, criou O ESTILO DO CANGAÇO. E assim um cronista da época dizia “Os bandidos aparecem tão excessivamente enfeitados que parecem que vão para um baile de carnaval”.

 

Pois bem, no dia 05 de agosto de 2017, estive conversando com minha mãe, Dona Adelaide (96 anos). E perguntei a ela: Mamãe, a senhora sabe se houve cangaceiro em Taquaritinga do Norte?. Ela, com seu cabelo branquíssimo, me respondeu: “Meu tio, T.B, foi uma das pessoas que os recebia em casa. E eles não eram cangaceiros. O que eles faziam era lutar contra a exploração dos mais pobres”. Mamãe, é verdade que sua prima P. era do cangaço? E, mais uma vez escuto: “Não. Ela andava armada de espingarda porque sabia que tinha um homem de meia idade que gostava de “comer adolescentes” (palavras dela). A senhora ouviu falar em alguma “Emília” que morou em Taquaritinga. E ela, sem titubear, me responde: “Sim, tinha muitas irmãs. Se não me engano, teria sido uma agente do correio de Taquaritinga”. Pois, Emília foi a avó da autora do romance “La Costureira”. E essa personagem morreu de tiro. Teve a cabeça cortada e enviada ao Recife para estudos.

 

 

 

___________________________________________________________________

[1] PEEBLES, Frances de Pontes. La Costurera. Madrid: Santillana, 2010.

 

 

Prof. Rozelia Bezerra
É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

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