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NO MATULÃO DO CANGACEIRO TEM...

August 12, 2017

 

Engana-se quem acha que os cangaceiros constituem um evento social dos anos de 1930. Já vimos, aqui, que José Gomes, “O Cabeleira”, atuava desde o século XVIII. Esse tipo de serviço foi estabilizado no início do Segundo Império (1834). Lá estavam usando seus chapelões de couro, sua cartucheira enfeitada, suas roupas vistosas e suas longas facas a serviço da nobiliarquia rural. E, para os mais afoitos e afoitas em condená-los à morte por degolamento, esses soldados fizeram parte das milícias contratadas pelos poderes estabelecidos. Já nesse tempo a carne-seca, farinha, rapadura e cachaça faziam parte de seu matulão, de sua lancheira. Afinal, cangaceiro também era um ser vivente e, como tal, precisava se alimentar e beber para aguentar as adversidades dos caminhos e as lutas. Toda a literatura que consultei faz referência a essa quadrilogia alimentar. A partir desse ponto farei uma advertência: para entender a história sociocultural do sertanejo, cangaceiro ou não, é necessário que não se perca de vista as relações econômicas e antropológicas que se estabeleceram nessa região, desde os tempos da colonização do Brasil.  Assim, é bom lembrar que no início do século XVI, no litoral e zona da mata o aporte econômico foi a cana-de-açúcar, enquanto no Agreste e no Sertão se instalou uma economia pastoril, com as imensas boiadas seguindo os caminhos dos rios (imagem 1), com homens e mulheres se instalando em lugares remotos e diferentes e montando os currais de gado, de bodes e cabras.

 Fonte: ANDRADE, Manoel Correia de. A terra e o Homem e o Nordeste, 1964, p. 5

 

O meio ambiente, o clima e  necessidade geraram a tecnologia da carne-seca.

 

 A farinha já fazia parte do cotidiano por ser um alimento indígena. E a rapadura e a cachaça? Como elas entraram no matulão, na lancheira, dessas pessoas? Ora, há, dentro do sertão seco, as áreas de microclimas, com reservas de matas, áreas de brejo localizadas na Chapada do Araripe e Diamantina. Foi aí que se estabeleceu uma agricultura de café e de cana-de-açúcar, forçando o aparecimento de pequenos engenhos de moer a cana, onde, também se produziu a rapadura e a aguardente.

 

 

A aguardente surgida a partir da fermentação dos restos de fervura do caldo de cana. Da borra da cana fervida. Ela era jogada fora e serviu de comida para bois e, depois, aos africanos trazidos como escravos.  Mas, fica a dúvida: por que cachaça e não aguardente? Ao que se constata, nos primórdios, “cachaça” era o nome reservado à fêmea do “cachaço”, ou porco. A carne desse animal era largamente consumida em Portugal. Como fosse muito dura, adicionavam-lhe “aguardente” para amaciá-la. Com o passar do tempo, essa aguardente assumiu o próprio nome da carne de “cachaça”. Os registros da literatura portuguesa do século XVI, como em Sá de Miranda, não deixam dúvidas que havia a carne das “perdizes” e havia a carne da “cachaça”, nas mesas dos senhores rurais de Portugal. Nas “Ceias do Paraíso”. Por sua vez, na Espanha do 1500, a “cachaza” estava relacionada à “bagaceira inferior”. E bagaceira, na Europa, era o resto das uvas fermentadas para se fazer o vinho.  No Brasil, do Tempo dos Flamengos, os estudiosos que vieram na Comitiva de Maurício de Nassau, fizeram o registro da palavra “Cachaça”, como uma resultante do processamento da cana de açúcar. Nos tempos dos Inconfidentes das Minas Gerais (século XVIII) o poeta Tomás Antônio Gonzaga registrava os efeitos embriagadores da “cachaça alegre que tirava a força dos robustos membros”, do então governador de Villa Rica. Foi nesse tempo das minas de ouro que o saber desse sabor foi parar no dicionário da língua portuguesa, Corria o ano de 1759, e o padre Rafael Bluteau registrava que “cachaça” é o “vinho das borras”. Que no Brasil era a “aguardente do mel”, ou borras do melaço”.

 

Depois de tanta apropriação e uso, pelas mais diferentes classes sociais e sendo o cangaceiro um agente social, oficializado pelo poder, ou considerado delinquente, não ficou difícil a cachaça fazer parte do seu matulão, assim como o fizeram a carne seca, a farinha e a rapadura. Afinal, para aguentar o rojão.  Era necessária uma “branquinha”, não sem antes jogar uma parte fora, numa oferta ao santo protetor.

 

 

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ANDRADE, Manoel Correia de. A terra e o homem no Nordeste. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1964.

BLUTEAU, Rafael. Diccionario da Lingua Portuguesa. Lisboa: Of. Simão Taddeo Ferreira, 1759, p. 208.

MENEZES, Djacir. O outro Nordeste. Rio de Janeiro: Arte Nova, 1970.

SANTOS, Rinaldo. A Revolução Norestina. A Epopéia das secas. Recife: Tropical, 1984.

 

Prof. Rozelia Bezerra
É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog. 

 

 

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