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CAFÉ: ENTRE XÍCARAS DE SABORES E SABERES.

July 22, 2017

 

Falar sobre o CAFÉ é uma coisa que me dá prazer porque passa por minha história de vida. Dos meus dias de infância no interior de Pernambuco. Lembra a minha avó Maria. Ela sempre tinha café pronto para quem chegasse à sua casa. Na sua cozinha, sempre aquecida pelo fogão de lenha, havia um bule de ágata azul com flores brancas à vista e à serventia de quem tinha acesso a esse templo sagrado. Havia outro bule, de ágata branca, que ficava na longa mesa da sala de jantar. Este era reservado aos menos íntimos da casa e para nós, os netos e netas. Lembro que o café era frio, mas no ponto para forrar nossas bocas ávidas por tomar goles, diretamente no longo e delgado bico do bule, que mais parecia um pescoço de cisne. Nessa sala havia uma cristaleira na qual ficava guardada uma latinha com cores vibrantes: vermelha e azul, que embaralhavam nossa vista. Nós dizíamos que ela era “furta-cor”. Acho que era uma lata de café solúvel da marca Nescafé (provei às escondidas e achei o gosto horrível).

 

 Nesses tempos passados, houve dias de ir para a fazenda e os dias de voltar para casa, quando as férias escolares acabavam. Lembro que, certa vez, me entregaram um bule com café e me alertaram: “Transporte com cuidado porque será tomado quando chegarmos em casa”. Entendam, era “a casa da rua”. Fui a guardiã errada: bebi, diretamente no bico do bule, tanto café quanto aguentei durante a longa caminhada atrás do carro de boi, que cantava as suas rodas. Lembro da bronca que levei ao chegarmos em casa e verem que o café havia, quase, acabado.

 

Falar de café também é lembrar de meu pai e minha mãe. Meu pai falava de “tomar uma Moca”, como ele chamava. Não sabia que ele falava da História do café. Tempos, muitos tempos depois, ao me tornar professora de História da Alimentação, fui pesquisar sobre a história do café e descobri várias lendas. Descobri que “Mocha” era uma cidade perto do Iêmen, na península árabe. E, em suas redondezas, havia um deserto no qual um homem fora condenado a morrer de fome. Tal fato não aconteceu porque, em sua agonia, ele ingeriu uns grãos vermelhos que lhe deram forças para voltar à cidade de Mocha, coisa que foi considerada um milagre. A partir de então, esse sobrevivente passou a falar das grandes qualidades daquele grão. Compreendi meu pai como um historiador.

 

Lembro de minha mãe que contava uma outra lenda de um pastor e suas cabras. Como professora, descobri que é uma lenda de origem africana. O pastor, chamado Kumbi, morava no interior da Abissínia (atual Etiópia), uma terra montanhosa e seca. Ele vigiava suas ovelhas e percebeu que elas seguiam um caminho montanhoso “Até que todas pararam de repente para comer as folhas e frutos vermelhos de um arbusto”. Outros dizem que não foi esse pastor, foi um dervixe, um tipo de monge mulçumano que morava em um monastério do Iêmen. Para certas pessoas um dervixe é um peregrino, esmolador e de vida santa. Outros dizem que foi o pastor que falou ao monge e este foi experimentar e descobriu a bebida. Não existem acordos quanto a isto. Só se sabe que há muito e muito tempo a bebida é conhecida pelo mundo mulçumano e foi considerada a “bebida da sobriedade”.

 

Saiu de uma cidade africana chamada Kafa, na antiga Abissínia, hoje Etiópia, e, gradativamente, foi sendo levada a outras partes do mundo, chegando à Europa. Quanto tempo levou?

 

Fonte: História do Café, 2012. Ana Luiza Martins. Ed. Contexto

 

Da Europa chegou à América. Mas, como esta planta chegou ao Brasil? Quem nos conta uma possível história é Ana Luiza Martins. Para ela, “a maior parte dos registros sobre a introdução do café no Brasil faz referência à mediação de uma mulher, Madame D’Orvilles, esposa do governador de Caiena. Nada estranho que o funcionário real Francisco de Mello Palheta passasse à História com vestimentas de cavalheiro a galantear a dama francesa num cafezal”. Assim, nas primeiras décadas do século XVIII (1727) Mello Palheta voltava para a Província do Grão-Pará com os preciosos grãos que lhes foram presenteados pela dama francesa (Ver imagem). Ele, saiu da história para ser uma marca comercial de café...café Palheta”.

 

 

E o café, saiu da mesa e virou um lugar: as cafeterias. E, também, entrou nas artes. Plásticas, literárias, cinematográfica e musical. De “Van Gogh” a “Di Cavalcanti”. De “Machado de Assis” a “Mário Quintana” Da “Festa de Babette” e “Amelie de Montmartre”, aos caminhos da liberdade de “Gaigin”. Da música de Cazuza aos Reis, Roberto e Luiz. Até Frank Sinatra veio à festa...

 

Quem diria que, das lendas africanas à nossa mesa diária, havia tanto a descobrir.

 

Com isto, acabo minha prosa e convido todos e todas para a uma xícara de sabores. Lembrando que, a cada sorvo dessa bebida, há muitos saberes envolvidos...

 

 

 

 

 

Prof. Rozélia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog.

 

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