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DE CAJU E DE CASTANHA

July 15, 2017

 

Será que as frases “quem sai aos seus não degenera” ou “tal pai, tal filho” “filho de peixe, peixinho é” são válidas? Tenho certo receio de pensar nesse destino fatalístico, mas elas são muito válidas para esse momento. quando pensei em falar sobre Caju e Castanha.

 

No mesmo momento que pensei em falar desse tema, lembrei de minha infância,  de minha pequena Gravatá de Jaburu e de meu pai e de minha mãe.

Gravatá do Jaburu – Gravatá do Ibiapina.

 

Sendo ou não verdadeiras as frases anteriormente citadas, o caju tem relação com minha infância. O fato é que quando eu era criança a minha casa ficava com cheiro de caju, rescendia a caju, porque havia cestas dessa fruta em cima da mesa da cozinha. Meu pai era um grande apreciador dela. Lembro que ele tentou, durante muito tempo, plantar caju no pequeno sítio que ele tinha e nunca conseguiu.

 

Por sua vez, minha mãe tinha horror ao caju por ele ser a fonte das nódoas de nossas saias ou das camisas dos meninos, ou mesmo do chororô da gente com os cantos da boca queimados pelo “leite” que saía da castanha crua. 

 

“Seu” Mocinho e “Dona” Adelaide

 

Se no sítio não tinha cajus, nós íamos pegar na terra de alguém. Nesse caso, o sítio de Luís de França (que, tempo, muito tempo depois, casaria com minha irmã) era nosso pomar. Era para lá que nos dirigíamos em tempo de safra. Os cajueiros não eram altos e tinham galhos que se estendiam pelo chão e espichavam, pareciam feitos braços para nos acolher. Em tempo de caju, as árvores ficavam de duas cores: vermelhos e amarelos.

 

 

Era a hora de colher frutas. Enquanto uns de nós subiam, havia aquelas pessoas que ficavam embaixo da galhada, Umas, abriam as saias, outras estendiam as camisas para recolher as frutas que nos eram jogadas...havia tanto cuidado para que elas não caíssem no chão e estourassem...nos preocupávamos mais com os cajus do que com seus coletadores e coletadoras....tanta algazarra, tanto riso, tanta alegria e que, pouco tempo depois acabava em chororô: ora pela briga na hora da divisão, ora pelas chineladas de nossa mãe, ao chegarmos em casa com as roupas manchadas, ou com as bocas queimadas pelo leite da castanha. Mas nada disso vinha ao caso porque havia outros momentos mágicos: comer a fruta,  saborear o doce, ir para a rua com meus irmãos para jogar “buraco” usando as castanhas. Eram o sabor e o saber do caju. Sabor esse que se completava quando juntávamos as castanhas ganhas no jogo e íamos assá-las em um fogo feito no terreiro da casa. Coisa de gente grande, isto ficava por conta de meu pai e nós ficávamos a olhar a labareda a subir e a lamber a velha lata impregnada do óleo de castanhas. A sentir o cheiro de castanha assada no ar, a expectativa do jogar a areia para apagar o fogo. Depois, o quebrar com a pedra, o esmigalhar, o comer os fragmentos, o sujar dos dedos com a tisna, o paladar que não saciava...Ah! A que sabe o sabor do caju e da castanha...

 

Essas memórias, reminiscências de minha infância livre, marota, moleca, mas também, de puxões de orelhas, de muita surra dada pela minha mãe, hoje se entrelaça com meu ofício de professora. Hoje, passados mais de meio século.

 

Ah! A que sabem os sabores do Caju e da Castanha!?

 

 

 Prof. Rozélia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog.

 

 

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