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CARDÁPIO DE ESTAÇÃO DE TREM...

 

 

No século XIX a Revolução Industrial Inglesa se espalhou pelo mundão de Deus. Chegou ao Sertão de Pernambuco, passando por Caruaru. Se espalhou para a zona da mata canavieira de Pernambuco e Paraíba. Indo do Recife até Palmares que, lá pelos idos de 1862, se chamava Una. Chegou a Itabaiana, na Paraíba. Ora, e como isso se deu? Nada mais, nada menos, do que através dos trens, cujos dormentes e trilhos foram colocados por uma empresa inglesa chamada Great Western do Brasil. Lá pelo ano de 1965, minha família saiu de Gravatá do Jaburu, povoado localizado no pé da Serra de Taquaritinga do Norte, para morar em Caruaru. Foi quando, pela primeira vez, vi o trem. Ele passava todo dia, no mesmo horário: 11 da manhã, vindo do Recife. Passava, de volta, às 16 horas, vindo de Salgueiro, sertão de Pernambuco, para o Recife. Trazia passageiros, dentre os quais os loucos da fome. A gente chamava “o trem da greiteueste”. A estação de Caruaru ficava no Largo da Coletoria. Lembro que a linha férrea passava em frente aos dois cabarés que tinha em Caruaru: Night Club e o Almirante Tamandaré. E havia um sino que batia loucamente anunciando que a máquina ia atravessar o cruzamento da Rua da Matriz com a Avenida Agamenon Magalhães. Medo de matar gente, como aconteceu com o menino surdo que foi colhido pela locomotiva. Menino pobre, morava no Salgado e estava empinando pipa. Nem sentiu o trem chegar...Deve estar no céu. Comoção geral...Outra vez, corria um bingo no largo da coletoria e espalharam o boato que o trem vinha chegando. Que pânico...corre, corre, quedas, pisoteio. Tudo era boato.

 

 

Finalmente chegou o tempo em que podia viajar de trem. Já estudava veterinária na UFRPE (1980) e um dia, decidi ir de trem.  Ele saía da Estação Central do Recife, no mesmo horário de 20 anos atrás. Viagem bonita e bucólica. Eram tantas as Estações: de Afogados, Parada de Bonança. Estação de Vitória de Santo Antão, de Gravatá, Encruzilhada de São João, de Bezerros, Caruaru e seguia até o Sertão. Nesse curso, passavam os túneis da Serra das Russas (acho que eram 11), passava gado, passava fazenda, passava cana, passava rio, riacho. Passava gente dando adeus.  Ponte de ferro.  A Maria Fumaça serpenteava entre o canavial da zona da mata, cortava a mata, o Agreste, ralo nas secas, escuro e verde na estação chuvosa. Ia danada com vontade de chegar. E quando chegava, em cada estação, era a festa dos vendedores de comida. O Cardápio era variado: bolo cabano, rolete-de-cana; sequilhos; laranja-cravo; caju, fruta de palma; cocada, branca e queimadinha, e a inseparável água de quartinha de barro. Café. Pirulitos em seus tabuleiros. Tinha milho assado, milho cozido. Ás vezes tinha queijo-coalho assado e tapioca. Mel de uruçu. Tinha até tanajura (quando era tempo). O alvoroço da pressa de vender e receber. Os famintos, que não podiam pagar o lanche do trem, apressados para comerem aquela comida, mais barata. O Cardápio da Estação. De repente, o trem começava a se mover e partia. A hora do encontro, também era despedida. Mas, além disso, havia o detalhe da fumaça que a Maria soltava. E a fuligem toda se alojava em nossas narinas. Por fim e ao cabo de 4 horas, chegava-se a Caruaru. As narinas escuras. A aventura do desbravar. Do sonhar, de ir danado com vontade de chegar.

 

 Museu do trem no Recife

 

Depois, veio outra revolução industrial e acabou, de vez, com o trem: foi a era dos ônibus. O cardápio passou a ser um só: coxinha e Coca-Cola, entregues por um homem asséptico. O trem não partiu mais, nem chegou a lugar algum, porque virou sucata. Voltou a ser ferro velho. Em nova revolução, passou a ser reciclado e reutilizado. Mas, na retina, ainda tenho a paisagem do Agreste pernambucano. Lembro de bocas famintas e de outras cansadas de gritar, em cada estação que o trem parava: “vai aí um rolete de cana? “Olha o bolo de bacia”. “Quem quer comprar pitomba?”.

 

 

Prof. Rozélia Bezerra

É graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1988). Mestra em Epidemiologia Experimental Aplicada ás Zoonoses, pela Universidade de São Paulo (1995). Doutora em Educação, com ênfase em História da Educação e Historiografia. Tese sobre a História do Ensino da Higiene na instrução pública de Pernambuco (1875-1930) É professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ministrando a disciplina História Cultural das doenças: as representações literárias. Professora de História da Alimentação, no curso de Graduação em Gastronomia – UFRPE. Pesquisa sobre História do ensino da Medicina Veterinária. Desenvolve pesquisa na área da História das Ciências e História das Doenças e dos Doentes no Brasil (séc. XVI-XX). Pesquisadora do Grupo de História Social e Cultural da UFRPE (GEHISC). A professora Rozélia escreve todas os sábados no nosso blog.

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